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ESG

Como o paisagismo pode ajudar as cidades a enfrentar a crise climática?

Por Ricardo Cardim
Botânico, paisagista e especialista em clima, saúde e infraestrutura verde.
Análise para o Imóvel Capital.

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Não é segredo que vivemos a maior crise climático-ambiental da história da humanidade. Nas últimas semanas, a Europa registrou temperaturas recordes para esta época do ano, enquanto regiões da Índia enfrentaram calor extremo, com termômetros próximos dos 50°C.

Diante desse cenário, chama atenção que, no Brasil, as áreas verdes privadas ainda sejam tratadas principalmente como elementos de decoração. Em muitos casos, a preocupação central continua sendo criar ambientes visualmente agradáveis, enquanto aspectos ligados à sustentabilidade e à adaptação climática permanecem em segundo plano.

Um exemplo é a baixa valorização de projetos capazes de formar biomassa vegetal significativa, com árvores de grande porte e copas amplas. Essa vegetação desempenha papel essencial para aumentar a resiliência das cidades diante dos eventos extremos que já afetam o ambiente urbano.

 

O combate às ilhas de calor urbanas

Um paisagismo que sombreia o solo e o asfalto contribui diretamente para reduzir as ilhas de calor urbanas, fenômeno que intensifica os efeitos dos eventos climáticos extremos.

Costumo dizer que convivemos com dois tipos de mudanças climáticas. As globais, cuja solução depende de acordos e políticas internacionais, e as regionais, provocadas pela forma como construímos e ocupamos as cidades.

O excesso de impermeabilização do solo, a redução das áreas verdes e o aumento da aridez urbana alteram o microclima local. E essa é uma realidade sobre a qual podemos agir.

 

O papel do paisagismo sustentável no século XXI

É nesse contexto que o paisagismo assume uma função estratégica.

Trata-se de um paisagismo muito mais multifuncional do que apenas decorativo. Hoje, o paisagismo precisa estar conectado ao espírito do nosso tempo: que é criar segurança climática, capacidade de regulação do clima, saúde pública, restauração ecológica e equilíbrio ambiental.

Para isso, é fundamental termos biomassa vegetal, sombra generosa, árvores grandes, nativas e conectadas ao solo. É fundamental promover a vegetação nativa.

 

A biodiversidade brasileira subutilizada

Apesar de o Brasil possuir a maior biodiversidade vegetal do planeta, cerca de 90% da vegetação utilizada nas áreas urbanas é composta por espécies exóticas. Trata-se de uma contradição difícil de justificar em um país com tamanha riqueza natural.

Por isso, considero que o paisagismo brasileiro do século XXI deve seguir dois princípios fundamentais.

O primeiro é a capacidade de gerar benefícios ambientais concretos, entre eles:

  • Redução da temperatura urbana;
  • Mitigação de enchentes;
  • Infiltração de água no solo e recarga dos lençóis freáticos;
  • Redução dos ruídos urbanos;
  • Filtragem de poluentes atmosféricos;
  • Retenção de poeira;
  • Abrigo para espécies que ajudam a equilibrar os ecossistemas urbanos e controlar pragas.

 

O segundo é sua função educativa e ecológica. O paisagismo deve aproximar as pessoas da biodiversidade brasileira, favorecer o retorno da fauna às cidades e evitar o uso de espécies invasoras que ameaçam os ecossistemas nativos remanescentes.

 

O paisagismo sustentável também agrega valor ao produto imobiliário

Além dos benefícios ambientais, existe uma demanda crescente por projetos paisagísticos alinhados aos princípios da sustentabilidade. Cada vez mais consumidores valorizam espaços capazes de aproximá-los da natureza, com espécies nativas, árvores frutíferas, atração de pássaros e maior conexão com a biodiversidade local.

Essa transformação já pode ser percebida no mercado imobiliário. Incorporadoras e clientes finais têm demonstrado interesse crescente por projetos que conciliem valor estético, desempenho ambiental e contribuição efetiva para a qualidade de vida urbana.

Nos últimos anos, tenho observado uma procura crescente por projetos de paisagismo sustentável, impulsionada por consumidores que desejam viver em ambientes mais conectados à natureza e por empreendimentos que buscam incorporar atributos ambientais cada vez mais valorizados pelo mercado.

O paisagismo sustentável deixou de ser apenas uma questão ecológica. Hoje, ele também representa um diferencial competitivo, capaz de agregar valor ao produto imobiliário e atender a um público cada vez mais consciente dos impactos ambientais e da importância da qualidade dos espaços urbanos.

 

Uma oportunidade para o mercado imobiliário

Grande parte do paisagismo praticado atualmente ainda segue conceitos herdados dos séculos XVIII e XIX, quando predominava uma visão essencialmente ornamental dos jardins.

A estética continua sendo importante, mas já não pode ser o único critério. Em um contexto de emergência climática, fatores relacionados ao conforto térmico, à drenagem urbana, à biodiversidade e à saúde pública tornam-se igualmente decisivos.

Nesse cenário, o mercado imobiliário tem uma oportunidade relevante de liderança. Com maior capacidade de inovação e implementação do que muitos setores da administração pública, incorporadores e construtores podem contribuir para a criação de cidades mais resilientes, sustentáveis e preparadas para os desafios climáticos das próximas décadas.

 

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