A transformação das cidades diante das mudanças climáticas e dos desafios crescentes de saúde urbana deixou de ser uma pauta conceitual para se tornar uma agenda concreta de desenvolvimento.
Instituições globais como a Organização das Nações Unidas vêm reforçando essa diretriz por meio da Agenda 2030 e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável — especialmente o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) e o ODS 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima).
Nesse contexto, consolida-se uma mudança de paradigma: o futuro das cidades passa, necessariamente, pela integração entre urbanização e sistemas naturais. O paisagismo emerge como infraestrutura ambiental estratégica, com impacto direto no clima urbano, na biodiversidade, na saúde das populações e na qualidade dos empreendimentos.

É nesse cenário que se destaca o trabalho de Ricardo Cardim e Alessandra Caiado Cardim, à frente da Cardim Arquitetura Paisagística. Com uma abordagem fundamentada em ciência, biodiversidade nativa e leitura aprofundada do território, o escritório vem contribuindo para reposicionar o paisagismo como um ativo essencial no desenvolvimento urbano contemporâneo.
Nesta entrevista exclusiva ao Imóvel Capital Ricardo Cardim — botânico, paisagista e especialista em clima, saúde e infraestrutura verde — aprofunda a relação entre paisagismo, clima e mercado imobiliário, abordando desde o papel das áreas verdes na resiliência das cidades até o impacto direto dessas soluções na qualidade ambiental e no valor dos empreendimentos.
Confira a entrevista completa:
1. Como o paisagismo se insere nas discussões atuais sobre clima, saúde urbana e qualidade das cidades?
Vivemos hoje o século das cidades. Pela primeira vez na história, a maior parte da população mundial está concentrada em áreas urbanas — e o Brasil é um exemplo expressivo desse cenário: nove em cada dez brasileiros vivem em cidades.
É nesse contexto que se evidencia a importância e a responsabilidade do paisagismo. Trata-se de uma disciplina diretamente ligada à concepção e à gestão das áreas verdes, tanto públicas quanto privadas, em diferentes formas de ocupação humana — sejam elas urbanas, litorâneas ou rurais. Em grande medida, é o paisagismo que define a qualidade ambiental dessas áreas.
Essa questão ganha ainda mais relevância diante de uma crise climática e ambiental sem precedentes na história da humanidade. Nesse cenário, uma das principais ferramentas disponíveis para promover resiliência e proteção das cidades está na vegetação urbana.
Quando concebido de forma sustentável e fundamentado em critérios científicos, o paisagismo tem a capacidade de atuar diretamente na adaptação das cidades às mudanças climáticas, contribuindo para a regulação ambiental e para a construção de ambientes urbanos mais equilibrados e resilientes.
2. Como a botânica, a ecologia e a leitura do território orientam, na prática, o desenvolvimento dos projetos paisagísticos?
É importante lembrar que o Brasil é um país extraordinário do ponto de vista ambiental. Detemos a maior biodiversidade vegetal do planeta, com mais de 45 mil espécies de plantas nativas distribuídas em nossos biomas, sendo cerca de 8.500 espécies arbóreas. Nenhum outro país possui uma diversidade tão ampla disponível para aplicação no paisagismo.
Apesar disso, observa-se um paradoxo: cerca de 90% da vegetação utilizada no paisagismo urbano brasileiro é de origem estrangeira. Em jardins e áreas verdes — especialmente aquelas com finalidade não alimentar — há uma predominância significativa de espécies exóticas.
Essa escolha gera impactos relevantes, tanto do ponto de vista ecológico quanto cultural. No campo cultural, há uma desconexão progressiva da população com seu próprio patrimônio natural. Os brasileiros, embora detentores de uma das floras mais ricas do mundo, muitas vezes desconhecem as espécies nativas, seus usos e sua relação com a fauna local. Com isso, perdem a oportunidade de conviver com essa biodiversidade em seu cotidiano — em casas, escolas, praças e espaços públicos.
Do ponto de vista ecológico, essa desconexão também compromete a tomada de decisão. Ao não reconhecer o valor da vegetação nativa, a sociedade tende a naturalizar a substituição por espécies exóticas, que frequentemente não atendem às necessidades da fauna local nem contribuem para o equilíbrio dos ecossistemas urbanos.
O resultado é um distanciamento entre cidade e natureza, que enfraquece tanto a identidade territorial quanto a capacidade de construção de ambientes urbanos ecologicamente equilibrados.
3. Como o paisagismo atua na regulação do microclima e no equilíbrio ambiental dos empreendimentos e das cidades?
Além dos aspectos climáticos, há uma questão ecológica central que precisa ser considerada. Quando utilizamos espécies estrangeiras no paisagismo, deixamos de promover uma reparação histórica e ambiental daquele território e, ao mesmo tempo, abrimos espaço para riscos relevantes.
Entre eles, está a introdução de espécies exóticas com potencial invasor. Algumas dessas plantas podem, ao longo do tempo, se comportar como invasoras, substituindo espécies nativas — inclusive em áreas de vegetação protegida por lei — e comprometendo a cadeia de equilíbrio dos ecossistemas locais.
Esse processo gera impactos em cascata. Ao substituir a vegetação nativa, reduz-se a oferta de alimento para a fauna local, o que pode levar ao desaparecimento de espécies animais em escala regional. Essas perdas, por sua vez, afetam diretamente a reprodução das próprias plantas nativas, uma vez que há uma interdependência construída ao longo de milhões de anos entre fauna e flora — seja na polinização, na formação de frutos ou na dispersão de sementes. Em muitos casos, determinadas espécies vegetais só conseguem germinar após passarem pelo sistema digestivo de aves, por exemplo.
Outro ponto crítico é a imprevisibilidade. Nem sempre é possível identificar, no momento da introdução, se uma espécie exótica se tornará invasora. Estudos científicos mostram que esse comportamento pode levar décadas para se manifestar, o que amplia o risco associado a essas escolhas.
Além disso, espécies exóticas podem introduzir pragas e doenças. Um exemplo recente é a disseminação de um besouro exótico que tem afetado mangueiras em diversas regiões do Brasil.
Trata-se, portanto, de um tema complexo, com impactos profundos e ainda pouco discutidos. Ao optar por jardins compostos majoritariamente por espécies estrangeiras, também se afasta a fauna nativa, rompendo relações ecológicas essenciais e comprometendo o equilíbrio ambiental dos empreendimentos e das cidades.
4. Qual é o papel da biodiversidade nativa na construção de ambientes urbanos mais equilibrados e resilientes?
O paisagismo sustentável, quando orientado por critérios científicos, tem capacidade não apenas de regular o microclima, mas de influenciar o clima urbano como um todo. Para isso, é fundamental que os projetos considerem aspectos como densidade vegetal, presença de árvores de grande porte — preferencialmente nativas — e sua conexão com solos permeáveis e com o lençol freático.
Essa conexão é essencial para o funcionamento do ciclo hidrológico. Árvores integradas ao solo têm a capacidade de transferir a água do subsolo para a atmosfera por meio da transpiração, contribuindo para a formação de nuvens e, consequentemente, para o regime de chuvas. Estudos científicos já demonstram que esse processo envolve a liberação de compostos que auxiliam na condensação do vapor d’água.
Trata-se de um sistema complexo de equilíbrio natural, que ainda é pouco considerado na prática do paisagismo urbano. Quando bem aplicado, no entanto, permite estruturar projetos que conciliam áreas de sol e sombra, com espécies arbóreas de grande longevidade — como jatobás, cabreúvas, copaíbas e cedros-rosa, no contexto da Mata Atlântica.
Os benefícios são amplos e diretos: regulação térmica, mitigação das mudanças climáticas em escala local e regional, melhoria da qualidade do ar, redução da poluição sonora e criação de habitats para a biodiversidade nativa. Essa biodiversidade, por sua vez, contribui para o controle natural de pragas urbanas, como mosquitos e outros vetores.
Em síntese, o paisagismo sustentável propõe a reprodução, dentro das cidades, de mecanismos de equilíbrio ecológico desenvolvidos ao longo de milhões de anos — um processo que resulta diretamente em ganhos para a saúde e a qualidade de vida das populações urbanas.
5. De que forma a integração entre paisagismo e arquitetura, hoje cada vez mais estratégica e complementar, contribui para diferenciar empreendimentos, aumentar competitividade e gerar valor de mercado?
O mercado de paisagismo passou por uma transformação significativa na última década. Em muitos empreendimentos, o paisagismo deixou de ocupar uma posição secundária e passou a ter o mesmo protagonismo que a arquitetura. Já não há mais uma hierarquia clara entre essas disciplinas — o que se observa é uma relação de equivalência e complementaridade.
Cada vez mais, arquitetura e paisagismo operam de forma integrada, em uma espécie de simbiose. Essa integração não apenas contribui para tornar os empreendimentos mais atrativos do ponto de vista estético e comercial, mas também os posiciona como produtos contemporâneos, capazes de responder a desafios urbanos.
Um edifício que incorpora soluções como pele verde com floresta na fachada, por exemplo, passa a desempenhar funções ambientais relevantes: redução da temperatura urbana, aumento da umidade do ar, atenuação de ruídos, filtragem de poluentes, mitigação de enchentes e criação de habitats para a biodiversidade. São benefícios que impactam não apenas os moradores, mas a cidade como um todo.
Outro aspecto importante é o caráter atemporal da vegetação nativa. Diferentemente de tendências estéticas passageiras — muitas vezes associadas ao uso de espécies exóticas —, a flora nativa carrega a identidade territorial de um lugar, construída ao longo de milhões de anos. Essa conexão confere autenticidade e permanência aos projetos.
Nesse contexto, um paisagismo sustentável, criterioso, embasado em ciência e bem comunicado ao mercado pode se tornar um diferencial competitivo relevante, contribuindo diretamente para o aumento de valor percebido, ganho de market share e valorização do VGV dos empreendimentos.
6. Como as características ambientais da região influenciam as decisões de projeto?
O desenvolvimento de um projeto paisagístico parte, necessariamente, de uma leitura aprofundada do território. Cada região possui características ambientais, culturais e urbanas próprias, que precisam ser compreendidas de forma detalhada antes de qualquer tomada de decisão.
Ao iniciar um trabalho em uma nova cidade, esse processo envolve uma imersão direta no local. Caminhar pela cidade, observar a vegetação — tanto nativa quanto exótica —, identificar remanescentes naturais, entender a lógica de urbanização, a configuração das calçadas e a arborização viária são etapas fundamentais desse diagnóstico.
Em Porto Alegre, por exemplo, esse processo incluiu longas jornadas de observação em campo, com caminhadas extensas e levantamento sistemático de informações. A partir dessa experiência, são construídas leituras e repertórios que orientam o desenvolvimento do projeto — em um trabalho que também dialoga com a prática de educação ambiental e difusão de conhecimento.
Esse conjunto de análises permite estruturar projetos mais consistentes, capazes de responder de forma integrada a diferentes demandas: desde a valorização do empreendimento e a lucratividade do incorporador até o conforto e a qualidade de vida dos moradores. Ao mesmo tempo, contribui para a resiliência urbana diante das mudanças climáticas e para o enfrentamento da crise global de biodiversidade.
O resultado são projetos mais profundos, funcionais e atemporais, alinhados às características específicas de cada território e às exigências contemporâneas das cidades.
7. Quais projetos no Rio Grande do Sul traduzem melhor essa integração entre paisagismo, território e clima?

O paisagismo desenvolvido para o empreendimento Tomaz, da Maiojama, em Porto Alegre (RS), se diferencia de forma significativa do padrão predominante no mercado brasileiro. Trata-se de uma proposta baseada em princípios de sustentabilidade, funcionalidade e valorização da biodiversidade nativa, com forte embasamento científico.
O projeto foi concebido a partir de evidências sobre os impactos positivos da vegetação na saúde física e psicológica das pessoas, incorporando soluções que contribuem diretamente para o bem-estar dos moradores e para a qualidade ambiental do entorno urbano.
Além dos benefícios para os usuários do empreendimento, o paisagismo também desempenha um papel relevante na recomposição ecológica, ao introduzir espécies que oferecem recursos alimentares e abrigo para a fauna nativa. Isso favorece a presença de abelhas nativas sem ferrão, aves e outros organismos essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas urbanos.
O resultado é um ambiente que ultrapassa a dimensão estética e se consolida como um sistema vivo, capaz de gerar impactos positivos para a cidade e para a biodiversidade — um modelo ainda pouco difundido no Brasil, mas que aponta para uma nova direção no desenvolvimento de empreendimentos urbanos.
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SERVIÇO
Cardim Arquitetura Paisagística
Site: www.cardimpaisagismo.com.br
Instagram: @cardim_paisagismo
Endereço: Alto de Pinheiros – São Paulo (SP)
Contatos: (11) 96497.8839
Tomaz – Maiojama
Site: www.maiojama.com.br/projetos/tomaz
Endereço: Rua Tomaz Gonzaga – Três Figueiras
CRÉDITOS
Fotos: Divulgação Ricardo Cardim, Cardim Paisagismo e Mika Amato / Divulgação Maiojama

