A diversidade cultural, territorial e econômica do Brasil cria um mosaico de oportunidades para o mercado imobiliário, mas também impõe desafios: o que funciona em uma região pode não funcionar em outra, e atributos que geravam valor há 10 anos podem não produzir o mesmo efeito hoje.
Diante desse cenário, é necessário compreender a relação entre produto, território e comportamento do consumidor.
A disputa pelo crescimento e pelos novos mercados também passa pela capacidade de entregar qualidade de vida aos clientes. É nesse contexto que o wellness, conceito de bem-estar aplicado ao setor imobiliário, ganha espaço.


O tema foi um dos destaques do Tijolo Business 2026, realizado pelo Tijolo Hub nos dias 25 e 26 de agosto, na capital. Em bate-papo mediado por Rodrigo Pavei, managing director da Pavei Empreendimentos e vice-presidente do Sinduscon-RS, Luciano Corrêa, CEO da CFL Inc., e Pedro Kopstein, sócio-diretor da Kopstein Incorporadora, compartilharam suas experiências sobre expansão, comportamento do consumidor e os novos atributos de valor no mercado imobiliário.
Wellness não é só a academia no prédio
Quem vive a prática das incorporadoras compreende que os consumidores estão em busca de uma experiência de moradia na qual o wellness não se resume a uma lista de itens de lazer dentro do condomínio.
Localização, arquitetura, mobilidade, serviços e integração com a cidade passam a fazer parte dessa equação. No mercado de alto padrão, essa transformação está relacionada também a uma nova percepção sobre o que significa luxo.
O novo luxo imobiliário valoriza o tempo e a experiência

“O tempo virou o principal luxo para o consumidor de alto padrão”, afirma Luciano Corrêa, CEO da CFL Inc. Essa lógica se relaciona ao conceito de cidade de 15 minutos, no qual os locais onde se mora e para onde se precisa ir estão próximos, tornando a rotina mais fácil.
“O empreendimento precisa resolver a vida do cliente, levando em conta onde fica a escola dos filhos, o local do trabalho, o shopping que ele frequenta, a academia que ele vai e os restaurantes que ele gosta”, explica Corrêa.
Nesse cenário, arquitetura e relação com o entorno ganham relevância. Fachadas ativas, comércio, gastronomia, hotelaria e outros serviços próximos ao empreendimento contribuem para a percepção de que morar ali proporciona mais qualidade de vida.
Isso também representa uma mudança na própria definição de luxo. Segundo o CEO da CFL, o consumidor de alto padrão está cada vez mais discreto e menos ostensivo. Por isso, as experiências passam a ter mais valor.
“As pessoas preferem ir a grandes eventos, como uma partida de Copa do Mundo ou de Roland Garros, em vez de adquirir um relógio de grife”, exemplifica.
Expandir exige conhecer a nova praça
A busca por novas oportunidades leva incorporadoras a explorar mercados além de suas áreas tradicionais de atuação. A entrada da Kopstein em São Paulo coloca em evidência um dos principais desafios desse movimento: transformar o conhecimento sobre a nova praça em decisões precisas de produto e localização.

“Você pode instalar o melhor mármore italiano, mas, se errar a rua e construir fora do eixo de serviços que atende o cliente, o prédio está fadado a não dar certo”, afirma Pedro Kopstein, sócio-diretor da incorporadora.
Para o consumidor de alto padrão, a localização precisa estar conectada à vida cotidiana. Poder se deslocar a pé, estar em casa na hora do almoço e não gastar duas horas no trânsito interfere diretamente na percepção de valor do imóvel.
Assim, a localização deixa de ser apenas uma característica geográfica e vira parte do produto.
Leitura de mercado dá vantagem competitiva
Como se planejar, então, em um setor no qual uma incorporadora pode comprar um terreno e levar anos até iniciar a construção do empreendimento?
As trajetórias da Kopstein e da CFL apontam para uma resposta: dedicar tempo e energia para estudar as regiões e compreender as demandas dos consumidores.
A expansão da Kopstein para a capital paulista foi materializada em 2021, mas o trabalho começou muito antes.
“Durante cinco anos, eu viajei todas as semanas para São Paulo antes de lançar o primeiro empreendimento, porque precisava vivenciar a rotina e conhecer a cidade de verdade”, conta Kopstein.
A experiência mostra que o conhecimento acumulado em uma cidade não é automaticamente transferido para outra. Ruas, hábitos, fluxos de deslocamento, serviços e relações de vizinhança podem mudar completamente a lógica de um empreendimento.
A CFL seguiu uma lógica semelhante em sua expansão para Santa Catarina. Antes de lançar o Le Mare, empreendimento com VGV de R$ 650 milhões, em Florianópolis, a incorporadora construiu conhecimento e presença local por mais de 20 anos.
“Planejamento precisa de execução, e esta é feita na cidade do empreendimento, onde está a rede de fornecedores e onde vamos projetar o quadrante de necessidades dos clientes. Isso só é possível com uma análise cuidadosa”, afirma Luciano.
Porto Alegre está fora do mapa das oportunidades?
O movimento de incorporadoras gaúchas em direção a outros mercados reflete um ciclo de crescimento e expansão geográfica. As empresas ampliam sua atuação para novas regiões, enquanto Porto Alegre segue entre as frentes estratégicas de investimento.
A própria CFL mantém projetos na Capital, como o Tauphick Residências, lançado no bairro Bela Vista no fim de 2025. O empreendimento combina arquitetura, qualidade construtiva e localização como elementos de valorização para um público que busca bem-estar e exclusividade.
Esse tipo de atributo tende a ganhar espaço no mercado de Porto Alegre também a partir da entrada em vigor do novo Plano Diretor, prevista para janeiro de 2027.

Para Rodrigo Pavei, managing director da Pavei Empreendimentos e vice-presidente do Sinduscon-RS, a nova legislação pode ampliar as possibilidades de integração entre os empreendimentos e a cidade.
“Porto Alegre está fazendo sua lição de casa, com uma nova legislação mais acessível, permitindo mais construções, o que gera um custo mais baixo e torna os produtos mais acessíveis ao consumidor final, e regras mais modernas, que permitem maior integração dos empreendimentos com a cidade e criam novas possibilidades para uso de fachadas ativas, tão importantes para o wellness”, afirma Pavei.
O novo mapa dos investimentos imobiliários, portanto, passa pela capacidade de entender para onde as cidades estão caminhando, como os hábitos dos consumidores estão mudando e quais atributos conseguem transformar essa mudança em valor.
Nesse cenário, wellness deixa de ser apenas uma tendência associada às áreas de lazer dos empreendimentos. Ele passa a representar uma forma mais ampla de pensar o produto, o território e a experiência, e a capacidade de interpretar essas transformações é um dos ativos mais valiosos para o mercado imobiliário.
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CRÉDITOS
Tijolo Business 2026: realização Tijolo Hub
Fotos: Imóvel Capital e Diego Larre @dlimagens
Foto montagem: Pedro Kopstein – de Alexandre Bazzo @bazzoalexandre
Autorizada a reprodução dos textos desde que a fonte seja citada – imovelcapital.online.

