Da união entre a Escola Livre de Arquitetura (ELA) e o Grupo Ospa, nasceu o Instituto Cidades Responsivas. A parceria – formada inicialmente para desenhar um curso que, devido às suas proporções, se transformou em um MBA –, consolidou-se como uma escola de urbanismo que une educação, pesquisa e consultoria em arquitetura, urbanismo, mercado e tecnologia, para agir propositivamente nas cidades.
“Percebemos que queríamos falar sobre tecnologia aplicada às cidades, mas o conceito de smart cities já nos parecia limitado. Encontramos o conceito de cidades responsivas sendo desenvolvido em alguns centros internacionais e entendemos que fazia mais sentido pensar a tecnologia como meio, e não como fim”, conta a arquiteta e urbanista Luciana Fonseca, Doutora em Planejamento Urbano, sócia-fundadora e diretora do Instituto Cidades Responsivas e da ELA.
Assim, o Instituto surgiu para integrar reflexão e ação no desenvolvimento das cidades contemporâneas, alinhado às demandas do século XXI e promovendo a aproximação entre academia, governos e mercado por meio da ciência de dados. Em entrevista ao portal Imóvel Capital, Luciana aprofunda o conceito de cidade responsiva e aborda o cenário urbano, dados e indicadores, novos modos de habitar, sustentabilidade e impacto urbano, além das transformações do mercado e do futuro das cidades.
1. O que define uma cidade responsiva na prática?
Na verdade, a cidade sempre foi responsiva, a gente é que não atribuía esse nome, esse conceito a ela. Ao longo do desenvolvimento da humanidade, a cidade sempre criou respostas em relação aos acontecimentos. A cidade industrial respondeu à cidade comercial do medievo, a cidade modernista respondeu ao caos da cidade industrial e, agora, a cidade contemporânea responde às limitações do modelo modernista.
O urbanismo modernista era muito impositivo, com zonas definidas, rígidas e, conforme as coisas foram acontecendo, a cidade foi ficando mais complexa, heterogênea. Só aí se passou a entender que um documento de plano diretor, todo normatizado, não dá conta de prever uma série de acontecimentos que podem ocorrer. É preciso lidar com a dinâmica, a complexidade, a variação e as incertezas de uma cidade. Essa é a resposta.
Por isso, uma cidade responsiva trabalha com sistemas capazes de se adaptar continuamente, utilizando tecnologias como dados, inteligência artificial e modelos preditivos para apoiar decisões. Ela prepara suas bases para lidar tanto com o cotidiano quanto com situações inesperadas.
Além disso, coloca o cidadão no centro da ação. O sujeito deixa de ser somente usuário e passa a ser corresponsável pela cidade.
2. Por que esse conceito ganha relevância justamente agora?
Quando começamos a falar sobre isso, ainda não se falava. Basicamente, acho que temos responsabilidade aí nesse termo. Há cinco anos, no início das primeiras turmas do MBA, fizemos uma pesquisa sobre o termo “cidades responsivas”. Na época, havia em torno de 13 mil resultados no Brasil, enquanto “cidades inteligentes” tinha milhões. No mundo, esse cenário mudava um pouco.
Se eu fizer essa pesquisa agora, comparando “smart cities” e “responsive cities”, em inglês, “responsive cities” já cresceu, enquanto “smart cities” deu uma estagnada. Ainda não está no mesmo patamar, mas o termo está crescendo mais internacionalmente. Já nacionalmente, na pesquisa, o termo “cidade responsiva” ainda está muito abaixo de “cidade inteligente”.
Mas por que agora? Acho que, primeiramente, todo mundo que está envolvido no fazer da cidade se deu conta de que, como estava, não poderia mais ser.
De que a gente precisava de novos instrumentos. Em cima desse entendimento, tem a tecnologia. Estamos vivendo uma revolução digital, informacional, de dados, de inteligência artificial, de tecnologia. Isso amplifica a responsividade.
Hoje, é possível criar um gêmeo digital que reproduza o comportamento de uma cidade, para poder imaginar um cenário possível, como uma cheia, por exemplo, ainda que ela não esteja acontecendo agora. Entender como ela se comportou quando houve, como isso pode se replicar e estar mais preparado para isso.
A cidade responsiva não é uma cidade reativa. É muito mais sobre gestão do que normativa. Ela organiza suas bases para atender o inesperado do cotidiano e conseguir responder rapidamente quando necessário.
3. O que diferencia os conceitos de cidade inteligente e cidade responsiva?
Podemos encarar o conceito de cidade responsiva como uma evolução do de cidade inteligente. Na trajetória desses dois conceitos, houve um momento em que a própria cidade inteligente percebeu que estava usando a tecnologia como um fim, e não como um meio. Que ela continuava reproduzindo a lógica da cidade analógica, só que usando tecnologia.
A partir dessa crise, o próprio conceito começa a se transformar e passa a compreender a tecnologia como um instrumento para apoiar o desenvolvimento urbano. É uma adaptação do conceito. A cidade inteligente segue existindo como conceito forte, mas a cidade responsiva representa um amadurecimento dessa visão.
Fundamentalmente, o que a cidade inteligente não trazia e a cidade responsiva traz, em conceito e prática, é o sujeito no centro da ação. Nós temos protagonismo. Nós somos responsáveis.
Ao mesmo tempo, ela rompe com uma visão estritamente antropocêntrica. Embora coloque as pessoas no centro das decisões, entende que elas fazem parte de um sistema integrado, que inclui natureza, ambiente, espaço urbano e todos os demais elementos que compõem a cidade.
4. O urbanismo responsivo mudou a forma de pensar os empreendimentos imobiliários ou ainda temos um longo caminho a percorrer?
Acho que sempre temos caminhos para evoluir, mas acredito que os incorporadores estão sendo responsivos às demandas do mercado. Isso é bom porque é sinal que existe valor, que as pessoas que consomem também estão vendo mais valor em ter uma fachada ativa, em ter áreas verdes, em ter arquiteturas de paisagem mais interessantes, em ter menos muros.
A cidade responsiva escuta o território. Logo, as pessoas que estão envolvidas nisso também têm que escutar para conseguir ter um produto bem desenhado e identificado em termos vocacionais. Acho que o mercado está escutando melhor, mas ainda tem muito a melhorar. Ainda tem muito muro, pouca fachada ativa, enfim, podemos evoluir.
5. Quais erros do urbanismo tradicional ainda são reproduzidos pela incorporação?
Talvez o principal seja a falta de escuta. No fim das contas, é tudo sobre comportamento e escolhas. O problema é, muitas vezes, achar que o que me trouxe até aqui me leva adiante, repetir lógicas do passado no presente, não olhar benchmarks, não estudar mercado, não transversalizar agentes, não conversar com a academia.
Ainda há muitos conceitos cristalizados, como a ideia de que seguro é estar murado. Não é. Podemos repensar minimamente como é esse muro, se ele pode ter transparências, por exemplo. Ou a ideia de que misturar usos não é bom. Muitas dessas premissas precisam ser revistas face às necessidades atuais.
6. Como a ciência de dados pode orientar decisões mais eficientes no mercado imobiliário? Que indicadores urbanos deveriam ser observados antes de lançar um empreendimento?
Os dados ajudam a entender se um determinado produto faz sentido para aquele território. O Instituto desenvolve o indicador de acesso habitacional, que cruza o tanto que a pessoa ganha com o quanto custa morar.
Quanto vou colocar do que eu ganho para financiar um apartamento? Se ficar entre 30% e 35%, o mercado tem equilíbrio, oferta e demanda. Se ficar em 80%, como Florianópolis, por exemplo, indica que tenho que aumentar a oferta para equilibrar com a demanda, porque é muito caro morar ali. Logo, o mercado deve olhar para aquele lugar como uma área potencial para se desenvolver. Esse é um dos nossos indicadores.
Tem também a questão do acesso ao trabalho. O indicador de mobilidade mede quantos empregos uma pessoa alcança em um deslocamento de 45 minutos a uma hora. Não é necessariamente sobre ter uma matriz modal, mas sobre eu ter densidade e diversidade de empregos, nunca ter hiatos de centralidade. São coisas importantes serem medidas de forma geral para uma cidade.
Para um empreendimento específico, é preciso analisar quatro grandes grupos de informações: radiografia espacial em termos sociais e econômicos, comportamento de mercado, comportamento das pessoas, que são demandas e desejos, e a situação de planejamento urbano, ou seja, o que o plano diretor permite construir.
O mais importante não é apenas ter acesso a dados. O desafio está em saber quais perguntas fazer e como interpretar essas informações para transformá-las em um bom produto.
7. O setor imobiliário brasileiro já utiliza dados urbanos de forma estratégica ou ainda opera muito no “feeling”?
Ainda tem bastante feeling, mas acho que, conforme os projetos vão crescendo e ficando mais complexos, o mercado já entende a necessidade de ter uma estratégia baseada em pesquisa, principalmente nas questões de faseamento. O que é o placemaking e o placebranding do lugar? O que eu lanço antes para não competir internamente com os meus próprios produtos? O que vai fazer mais sentido? O que colocar como âncora? O que eu lanço junto com a âncora? Para lotes, acho que não. Acho que ainda atua mais observando o entorno e o bairro.
Tem empresas que usam a inteligência artificial apenas para obter respostas mais prontas e rápidas e outras que recorrem à tecnologia para coletar e processar dados, mas que irão fazer uma interpretação baseada no conhecimento em urbanismo e mercado imobiliário da equipe que trabalha em conjunto com o cliente. Esse é mais o perfil do Instituto Cidades Responsivas, uma construção coletiva, de escuta mais amplificada, usando muito a tecnologia.
8. Existe hoje uma demanda real do consumidor por bairros mais humanos e caminháveis? Qual a percepção de vocês sobre isso?
Acho que tem pessoas que querem e que não querem. Não parece ser uma regra. Funciona bastante no discurso, mas não tanto na prática.
É claro que, na teoria, praticamente todos defendem cidades caminháveis, agradáveis e com espaços públicos qualificados. Na prática, ainda pesam muito fatores como segurança e acesso aos equipamentos urbanos.
Ainda tem bairros, por exemplo, que são mais monofuncionais, herança do nosso planejamento urbano. As pessoas não vão caminhar ali por interesse, a não ser que seja para passear com o cachorro, porque há pouco comércio ou serviços disponíveis no entorno.
9. O espaço urbano precisa ser ocupado para se tornar mais seguro ou precisa ser mais seguro para ser mais ocupado pelas pessoas?
Ele precisa ser mais ocupado. É a ideia dos “olhos da rua”, proposta por Jane Jacobs, que parte do princípio de que, quanto mais janelas voltadas para o espaço público, maior será a presença de pessoas observando e interagindo com a cidade.
Ou seja, quanto mais pontos de contato entre os edifícios e a rua, melhores as condições de permanência, circulação e uso desse espaço. Sem dúvida nenhuma, a cidade mais segura é a cidade com dinâmica, a cidade viva. Quer dizer, é só dizer “não” para aqueles muros gigantes e enormes.
10. Quais tendências já começam a dar sinais de transformação e devem moldar as cidades brasileiras nos próximos dez anos?
A principal tendência, que vai acontecer de qualquer maneira, inexoravelmente, é o envelhecimento populacional. Isso é um fenômeno em escala global. A terceira idade é um mercado consumidor com comportamento distinto e que vai precisar de espaços mais adequados, tanto na parte comercial quanto nas unidades, nos complexos e nas narrativas de bem-estar e wellness. Precisamos pensar em como vamos nos preparar para isso.
Um desafio que já começa a aparecer é lidar com a hipótese de que a cidade não vai mais crescer daqui a pouco. Porque a gente existe a partir da premissa de que a cidade cresce. A cidade sempre cresceu. Mas temos dados indicando que vai haver uma estagnação e que as cidades vão começar a reduzir. Esse é um desafio em todos os níveis e para todos os agentes.
Outra tendência ainda são as questões de retrofit e de olhar para as áreas centrais para imaginar como elas podem voltar a uma pauta de uso cotidiano e de vitalidade urbana. Reativar a parte habitacional das áreas centrais e fazer com que as pessoas voltem a desejar morar nos antigos centros históricos.
Também há uma tendência de maior cuidado, atenção e respeito às dimensões do meio ambiente, considerando seca, chuva, vento, frio e calor. É preciso entender isso como uma necessidade que deve estar, necessariamente, dentro das nossas pautas.
Existe ainda uma tendência — que talvez nem seja uma tendência, mas um acontecimento — relacionada à ocupação das mulheres na atualidade, ao trabalho e à questão das crianças. Isso tem configurado muitos mix de produtos para atender uma dinâmica de vida que, há muito tempo, já coloca as mulheres em uma rotina que precisa ter uma programática.
11. O futuro das cidades passa mais por tecnologia ou por planejamento urbano?
Acho que o futuro da cidade é a gestão utilizando a tecnologia. O planejamento não é estático, nem impositivo. Ele tem que se preparar para a gestão urbana e conseguir fazer uma boa gestão utilizando tecnologia fundamentalmente.
Entendemos a tecnologia como um instrumento a nosso favor. Para interoperar dados, conseguir ler o território, entender a vocação do produto, fazer auto licenciamento e facilitar a velocidade dos empreendimentos, além de medir impactos por meio de indicadores.
Cidades são redes de agentes
A fim de reunir academia, governos e mercado para refletir, propor e cocriar o futuro urbano, o Instituto Cidades Responsivas promove, em agosto, o 4º Encontro Cidades Responsivas. Programado para os dias 27 e 28, no Instituto Caldeira, em Porto Alegre, o evento já confirmou, para a palestra de abertura, a presença de Alain Bertaud, um dos pensadores mais influentes do urbanismo contemporâneo, que irá tratar sobre o envelhecimento e redução populacional como vetor urbano.
Outro destaque será a participação de Carlo Ratti, diretor do MIT Senseable City Lab, principal laboratório de dados e urbanismo do mundo, e curador da 19ª Bienal de Veneza (2025). Responsável pelo encerramento do encontro, Ratti combina dados, tecnologia e design para repensar o funcionamento das cidades, em projetos executados em escala real em metrópoles de todos os continentes.
Integra ainda a programação a palestra online “High Line & Underline – espaço público como infraestrutura urbana”, com Isabel Castilla, sócia da Field Operations, escritório nova-iorquino responsável pelo projeto do High Line, pelo Domino Park e pelo Underline em Miami. Serão dois dias de imersão urbana, com painéis, talks e atividades práticas. Mais informações em www.responsivecities.com/eventos/encontro-cidades-responsivas.
—–
SERVIÇO
Instituto Cidades Responsivas
Site: www.responsivecities.com
Instagram: @responsivecities
LinkedIn: linkedin.com/school/responsivecities
YouTube: www.youtube.com/@responsivecities
Endereço: Avenida Osvaldo Aranha, 790 – Bom Fim – Porto Alegre/RS
CRÉDITOS
Foto: Divulgação
