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CIDADE

De Nova York a Porto Alegre: lições para um urbanismo resiliente

Grandes metrópoles vêm incorporando novas funções aos espaços urbanos para responder a desafios ambientais, sociais e de mobilidade. Em Nova York, o High Line transformou uma antiga linha ferroviária elevada em parque público. Em Miami, o The Underline ocupa a área sob uma linha de metrô com espaços para mobilidade, lazer e infraestrutura verde.

arquiteta paisagista Isabel Castilla
Isabel Castilla aborda possibilidades para ampliar a resiliência urbana de Porto Alegre diante dos eventos climáticos – Foto: Liz Ligon

Os dois projetos foram apresentados como referências pela arquiteta paisagista Isabel Castilla durante o 4º Encontro Cidades Responsivas, realizado em Porto Alegre. Sócia do James Corner Field Operations, escritório responsável pelos projetos de revitalização, Castilla explicou como o High Line e o The Underline — ainda que concebidos em circunstâncias diferentes — tinham o mesmo objetivo: transformar estruturas que criaram rupturas na cidade em elementos capazes de contribuir para o espaço urbano.

 

Evolução do High Line (Nova York)
Evolução do High Line (Nova York): Da esquerda para a direita, o trecho em sua fase ferroviária ativa na década de 1930, o abandono nos anos 1980, e o parque linear contemporâneo em sua versão atual — Foto/montagem: Field Operations

Porto Alegre e a reconstrução diante dos eventos climáticos

O High Line e o The Underline representam um modelo de reestruturação urbana que poderá servir de inspiração para Porto Alegre. Dois anos após as históricas enchentes de 2024, a cidade ainda lida com as marcas do desastre e com a constante apreensão a cada novo período de chuvas intensas.

A necessidade de reconstruir as áreas destruídas pela catástrofe abre margem para a aplicação do urbanismo propositivo, bem como oferece à capital a chance de explorar o conceito de cidades-esponja. Em vez de apenas refazer as estruturas danificadas, a revitalização do local pode passar por espaços públicos multifuncionais e infraestruturas verdes capazes de auxiliar no controle das cheias, proporcionando maior qualidade de vida à população.

 

Infraestrutura verde como parte do sistema urbano

Para Castilla, a vegetação é uma peça central de engenharia e sustentabilidade.

No The Underline, segundo a paisagista, as plantas nativas — dizimadas pela obra original — foram reincorporadas ao local. A lógica por trás disso é dupla: ecológica e econômica. O resgate da flora nativa reconstrói corredores de biodiversidade e cria microhabitats para a fauna urbana, ao mesmo tempo em que reduz drasticamente custos com insumos e água.

Adotar essa diretriz em Porto Alegre pode significar o fim de canteiros estéreis. A substituição do solo compactado por vegetação nativa e canteiros drenantes é uma alternativa para transformar a própria malha urbana em uma aliada contra os alagamentos. Isso evidencia como a infraestrutura verde é, antes de tudo, uma infraestrutura de sobrevivência.

The Underline (Miami)
Solo do The Underline (Miami) antes da revitalização — Foto: Field Operations

“Aqui vemos uma imagem do que o espaço era: solo compactado, com pouquíssimo plantio, uma área que não drenava, que não tinha nenhum valor ecológico; e logo abaixo, [uma imagem de] como estamos transformando-o lentamente ao incorporar vegetação nativa que necessita de pouca manutenção, não tem absolutamente nenhuma irrigação, cria habitat para o ambiente natural e também cria um espaço muito mais sustentável e de alto desempenho.” – Isabel Castilla.

Solo do The Underline (Miami)
Solo do The Underline (Miami) após a revitalização — Foto: Sam Oberter

 

A próxima geração urbana

Para Castilla, o erro histórico tem sido tratar o transporte e o espaço público como gavetas separadas. Em um cenário onde os desafios climáticos estão cada vez mais complexos, a forma como ruas, ferrovias e áreas de circulação funcionam precisa ser estruturada de maneira mais ampla.

Em sua palestra, Castilla sintetizou a essência dos projetos apresentados: ambos tratam de reconhecer a capacidade cívica da infraestrutura. No caso do High Line, o que aconteceu foi reaproveitamento de estruturas obsoletas. Já o The Underline exemplificou a possibilidade da coexistência com linhas ativas.

Em regiões que buscam se regenerar e ganhar resiliência contra enchentes, essa visão reforça que qualquer intervenção viária ou de mobilidade pode ser concebida pensando na integração a sistemas de drenagem, áreas verdes e convívio social, unindo trânsito e ecologia em um só projeto.

“À medida que as cidades continuam a evoluir, talvez devêssemos parar de pensar na infraestrutura de transporte e no espaço público como sistemas separados. A próxima geração da infraestrutura urbana pode — e, cada vez mais, deve — fazer as duas coisas.”

O High Line em plena atividade ferroviária na década de 1930 — Foto: Gallery Historical/Kalmbach
O High Line em plena atividade ferroviária na década de 1930 — Foto: Gallery Historical/Kalmbach

 

Trecho elevado da ferrovia, já desativada, antes de sua conversão em espaço público — Crédito: Field Operations

 

High Line atual: Vista do parque linear — Crédito: Iwan Baan.
High Line atual: vista do parque linear — Foto: Iwan Baan

 

A entrevista concedida ao Imóvel Capital aprofunda esses conceitos e aborda cidades-esponja, gentrificação verde, participação do setor privado, financiamento de espaços públicos e o papel dos parques urbanos no século XXI.

Entrevista com Isabel Castilla

 

1. Como projetos de revitalização podem contribuir para a prevenção de eventos climáticos extremos em cidades como Porto Alegre?

Essa é uma ótima pergunta, e acho que é algo para o qual os campos da arquitetura paisagística, engenharia e desenho urbano precisam estar atentos. Não podemos pensar em espaços que sirvam para apenas uma finalidade; eles precisam ser multifuncionais.

Existe o aspecto social dos espaços públicos, que é extremamente importante: garantir que as pessoas tenham locais para se encontrar, socializar e praticar exercícios é fundamental para a saúde mental e a saúde geral da população de qualquer cidade. Mas o clima também é crucial, sendo necessário ter espaços capazes não apenas de se adaptar às mudanças climáticas, mas também de ajudar a mitigá-las.

O conceito de cidades-esponja já é bastante difundido na Europa há algum tempo, mas acho que demorou para chegar às Américas — tanto ao Brasil quanto aos Estados Unidos, que também sofreram com inundações semelhantes em Nova Orleans há muitas décadas. Todos esses acontecimentos nos fazem refletir sobre como um único espaço pode desempenhar múltiplas funções.

Os espaços públicos abertos, por estarem profundamente integrados à malha urbana da cidade, são candidatos perfeitos para isso, pois não estão isolados ou do lado de fora. Pela sua própria natureza, eles se misturam com a cidade e com a rotina das pessoas, tornando-se ideais para ajudar na mitigação das mudanças climáticas.

Cidades-esponja são um tema muito interessante porque podem se materializar de diversas formas. Na Alemanha e na Holanda, por exemplo, existem espaços projetados bem acima do nível da água e preparados para alagar. Assim, se houver uma enchente, a cidade continua funcionando e os espaços não sofrem danos. Essa é uma forma de encarar a questão, voltada para a preservação da vida humana, embora sem focar necessariamente no aspecto ecológico.

Com o avanço da tecnologia, o pensamento começou a se reformular: as “esponjas” também são sistemas naturais, capazes de crescer, se expandir, absorver água ou secar, criando uma nova ecologia característica do local e da cidade, além de contribuir para mitigar esses grandes eventos de inundação.

Acredito que o campo da arquitetura paisagística esteja sendo pioneiro e avançando muito nisso, porque trabalhamos lado a lado com o desenho urbano e os sistemas naturais. É aí que as cidades-esponja entram em jogo: trata-se de criar um novo sistema natural, projetado ou engenheirado, que dialogue com a ecologia existente e funcione como um sistema ativo para conter esses problemas.

Essas soluções não precisam ser pensadas apenas em uma escala gigantesca como a que aconteceu em Porto Alegre — embora isso seja muito importante. Elas também precisam ser planejadas para mitigar o dia a dia. Se houver uma chuva forte, uma chuva tropical intensa durante uma hora, o sistema de drenagem da cidade fica sobrecarregado e ela alaga. Mesmo que a água escoe rapidamente, isso ainda causa um grande impacto na vida pessoal e na dinâmica urbana.

Portanto, pensando na arquitetura paisagística, acho fundamental tentarmos aplicar o conceito de esponja em qualquer escala — seja em um pequeno jardim ou em um parque público de grande porte que possa ter um impacto maior diante de eventos de grande magnitude.

 

2. Como evitar que a revitalização urbana provoque gentrificação verde?

Essa é uma questão com a qual muitas cidades estão lidando. Quando começaram a surgir projetos de revitalização urbana mais drásticos, o planejamento e o zoneamento urbano não caminharam lado a lado com eles, o que permitiu a gentrificação e a alteração dos valores imobiliários que acabaram deslocando a população.

Acho que aprendemos muitas lições com esses episódios. É fundamental que, ao planejar a revitalização do desenho urbano, das ruas ou das vias públicas, isso venha acompanhado de políticas de planejamento urbano que garantam a permanência dos moradores e evitem mudanças de zoneamento atraentes para investidores que comprariam os terrenos, aumentariam a densidade e gentrificariam a área.

Esse é o dilema que muitas cidades enfrentam: tratar essas abordagens de forma isolada. Elas focam na criação de parques, espaços públicos e melhoria do domínio público, mas se esquecem de que isso precisa andar junto com políticas públicas. Quando isso não acontece, esses problemas surgem.

Pensando em Porto Alegre — e li um pouco sobre o fato de muitas comunidades ainda estarem desamparadas ou sem revitalização —, é preciso integrar esses processos. [É preciso pensar] o que pode ser feito para garantir que as ruas, o sistema de drenagem e os parques sejam não apenas corrigidos, mas aprimorados para o futuro, ao mesmo tempo em que regulamentações de zoneamento protejam essas comunidades, permitindo que permaneçam no local sem descaracterizar os bairros.

 

3. Como equilibrar investimento privado e espaços públicos acessíveis?

O Domino Park (parque na região do Brooklin, construído pela mesma empresa responsável pelo High Line), por exemplo, é 100% privado. Foi uma empresa desenvolvedora, uma família com raízes profundas no bairro, que decidiu criar um espaço público aberto integrado ao empreendimento.

Eles reconheciam que o espaço público agregaria valor ao terreno e ao projeto deles. Na época, aquela área era totalmente industrial e não havia acesso público à orla. Eles sabiam que criar esse acesso tornaria os edifícios mais atraentes. Mas, devido ao compromisso que tinham com aquela comunidade, sentiram que também precisavam retribuir.

Quando colaboramos com eles no Domino Park, chegamos à conclusão de que o mais importante era construir o parque primeiro. O parque era privado, embora projetado em parceria com a prefeitura para atender a todos os padrões urbanos.

Construí-lo antes foi essencial para oferecer um espaço à comunidade que já morava ali, evitando que se sentissem deslocados. Na verdade, eles ganharam a oportunidade de desfrutar de um espaço público com acesso à orla, algo que nunca tinham tido.

Quando o parque se consolidou como um sucesso, o desenvolvimento dos prédios seguiu. Embora fossem edifícios de alto padrão — para um público diferente daquela comunidade original —, o espaço público proporcionou o encontro entre os novos e os antigos moradores. Isso foi fundamental para evitar o deslocamento, pois transformaram uma área industrial onde ninguém morava, mas entregaram um espaço público para a comunidade do entorno.

Outro ponto valioso desse projeto é que a empresa continua custeando a manutenção, a operação e toda a programação pública do parque, que é 100% gratuita. Isso garante que todos possam usufruir do local.

Nos Estados Unidos, temos outros modelos baseados em organizações sem fins lucrativos. Nesses casos, são essas organizações, e não os desenvolvedores imobiliários, que lideram os projetos públicos, reconhecendo que o poder público nem sempre tem braço para gerenciar projetos complexos.

Esse modelo tem funcionado muito bem nos EUA — não sei como funciona exatamente no Brasil —, permitindo que ONGs captem recursos e gerenciem os projetos em estreita parceria com as prefeituras. Elas seguem as normas e metas da cidade, mas, por serem organizações sem fins lucrativos, conseguem dar mais agilidade aos projetos. Isso é muito importante quando busca-se implementar espaços voltados ao bem-estar social e ao impacto ambiental.

 

4. Uma cidade que não tem um orçamento bilionário, você acha possível pensar nesses projetos sem investimento privado, ou ele seria obrigatório nesse cenário?

Não, acho perfeitamente possível pensar nisso sem investimento privado, porque as cidades estão constantemente renovando sua infraestrutura. As prefeituras estão sempre reformando vias, calçadas… Nada disso é excessivamente caro; são intervenções de rotina que precisam ser feitas.

O ponto principal é mudar a forma como olhamos para o futuro e realizar essas obras de modo que também auxiliem no combate às mudanças climáticas, na gestão da água e no controle de enchentes.

Vou te dar um exemplo: em Nova York, o Departamento de Transportes (um órgão público) está substituindo trechos de concreto nas vias públicas por jardins de chuva nos canteiros centrais. Isso não exige um grande volume de novos investimentos. Eles já teriam que refazer a infraestrutura de qualquer forma porque era antiga. A diferença é que, em vez de reconstruir do mesmo jeito, estão criando jardins de chuva que ajudam na retenção de água de forma localizada.

Isso é algo que toda cidade precisa começar a considerar: não refazer as coisas exatamente como eram antes, mas reconstruí-las de forma mais produtiva e proativa, utilizando o mesmo orçamento que já seria destinado à manutenção convencional.

 

5. Para encerrar, qual seria a função principal de um parque urbano no século XXI?

Acredito que um parque urbano no século XXI precisa desempenhar múltiplos papéis. Há uma grande expectativa para que os parques resolvam diversas questões.

Ele deve ser um espaço acolhedor para todos — independente de idade, raça ou interesse. Para isso, precisa comportar tanto o uso passivo e contemplativo quanto a recreação ativa e o convívio social, tornando-se verdadeiramente um lugar democrático.

Além disso, deve ser um agente ativo no combate às crises climáticas: aumentando a arborização, reduzindo as ilhas de calor e criando oportunidades para o desenvolvimento de ecossistemas e habitats para a fauna urbana.

Por fim, acredito que o parque precisa estar enraizado na cultura local. Os parques se tornam o coração de uma comunidade quando as pessoas se identificam com eles.

Eu sempre digo: você pode admirar um projeto pelo modo como ele respondeu ao seu contexto, comunidade e cultura, mas para a sua própria cidade você vai querer algo diferente, fruto de uma tradução própria. Isso é essencial. Se um parque não for acolhido pela comunidade, ele ficará vazio e não cumprirá o seu propósito.

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CRÉDITOS
4º Encontro Cidades Responsivas
– Realizado pelo Instituto Cidades Responsivas e pela OSPA

Autorizada a reprodução dos textos desde que a fonte seja citada – imovelcapital.online.

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