Reconhecido com o Grande Prêmio Regional do Holcim Foundation Award 2025, o projeto Escolas Resilientes do Rio Grande do Sul, desenvolvido pelo Andrade Morettin Arquitetos Associados em parceria com o escritório Sauermartins, nasce como uma resposta concreta às urgências climáticas e se consolida como uma proposta de legado para a arquitetura contemporânea.

A partir do contexto das enchentes de 2024 no RS, o trabalho propõe um novo modo de pensar a escola pública: resiliente, adaptável, multifuncional e profundamente conectada ao território e às comunidades. A iniciativa resultou em um Guia de Diretrizes para projetos escolares em áreas de risco hídrico, orientado por inteligência coletiva e viabilidade técnica, social e ambiental.

Nesta entrevista ao Imóvel Capital, o arquiteto Vinicius Andrade, sócio fundador do Andrade Morettin, fala sobre o processo de concepção do projeto, o papel da EEEM Almirante Barroso — localizada em Porto Alegre — como protótipo, e o potencial dessa inteligência arquitetônica produzida a partir do RS para inspirar políticas públicas no Brasil e em outros países.

1. Como se deu o convite do Instituto Unibanco e de que forma a equipe pôde atuar com autonomia técnica e conceitual no desenvolvimento do projeto?
Fomos convidados pelo Instituto Unibanco para contribuir com o conjunto de esforços que se mobilizaram no âmbito da reconstrução do Estado, após os desastres naturais ocorridos em 2024. Desde o princípio, nos foi solicitado que buscássemos soluções concretas para as escolas estaduais, e fomos alertados de que muita discussão acerca dos eventos já havia se consolidado, o que nos permitiu partir de uma massa crítica bastante consistente.
A partir das conversas organizadas pelo Instituto, tivemos contato com pessoas e instituições que deram contribuições fundamentais para o desenvolvimento do projeto. Com base nessa escuta, tivemos total autonomia e liberdade para propor caminhos e soluções.
2. O projeto foi concebido para pensar um novo padrão para a rede estadual de ensino. Como a EEEM Almirante Barroso, em Porto Alegre, passa a operar como protótipo dentro dessa lógica mais ampla?
Fomos convidados a pensar um novo padrão para o conjunto das escolas do Estado. A partir do estudo de inúmeros casos — diversos em localização, impacto sofrido e tipologia construtiva — elaboramos um conjunto de estratégias adaptativas para a transformação de toda a rede em unidades resilientes.
Algumas escolas deverão sofrer pequenos ajustes, outras transformações mais importantes, e outras ainda precisarão ser reconstruídas do zero. Este último é o caso da EEEM Almirante Barroso e, por isso, ela foi selecionada para ser desenvolvida como um modelo — ou um protótipo — no qual essas diretrizes pudessem ser testadas e verificadas.
O projeto, consolidado na forma de um Guia orientativo para as adaptações, nasce naturalmente com a intenção de ser generalizado e escalado. Trata-se de um conjunto amplo e flexível de diretrizes, resultado de uma inteligência coletiva construída a partir de uma escuta estruturada e sistematizada. É importante observar, no entanto, que muitas dessas diretrizes foram desenvolvidas para a realidade específica do RS, e qualquer aplicação em outras regiões demanda verificação e adequação.
3. O reconhecimento internacional indica que o projeto extrapola o contexto regional. Que elementos ajudam a posicionar a arquitetura brasileira como produtora de soluções concretas para a crise climática global?
Sem dúvida, o enfrentamento proposto por este projeto dialoga com problemas vividos em diversas partes do mundo, especialmente no chamado Sul Global. As mudanças climáticas, quando provocam eventos severos, costumam afetar de forma mais intensa comunidades com infraestrutura mais vulnerável.
O conjunto de diretrizes reunidas no Guia tem grande potencial de replicabilidade em territórios com condições sociais e climáticas semelhantes. Mas talvez seja mais correto dizer que o projeto se apresenta como uma iniciativa reprodutível por seu método: uma observação sensível da sabedoria popular local, uma escuta estruturada e a sistematização do que chamamos de inteligência coletiva.
O reconhecimento internacional tem muito a ver com essa capacidade de síntese. Estamos assistindo a uma mudança no padrão das premiações, em que a estética final divide espaço com os processos, as estratégias e os impactos gerados.
4. O projeto resulta em um Guia de Diretrizes. O principal legado desse trabalho é técnico, conceitual ou metodológico?
O Guia é, de fato, o verdadeiro resultado deste projeto. A ideia foi sistematizar um conjunto de estratégias capazes de orientar gestores, diretores, projetistas e construtores no processo de reconstrução das escolas do Estado.
Esse trabalho reúne, de forma articulada e sem hierarquia, os aspectos técnicos, conceituais e metodológicos. São dimensões irmãs que constituem o legado do projeto, justamente por estarem integradas.
5. A partir da experiência recente do Rio Grande do Sul diante de eventos climáticos extremos, quais aprendizados você considera mais relevantes para orientar outros territórios?
Houve muitos aprendizados, mas eu destacaria especialmente a importância da mobilização e da colaboração — tanto da sociedade civil quanto do poder público — como ferramentas centrais para o enfrentamento de eventos extremos.
6. O projeto aposta em diretrizes adaptáveis, e não em modelos fechados. Como esse equilíbrio contribui para uma arquitetura com identidade territorial e alcance ampliado?
A opção por diretrizes adaptáveis decorre do desejo de promover as transformações necessárias sem apagar ou desconfigurar as escolas existentes. Trata-se de uma estratégia que preserva a história e a identidade dos lugares.
Muitas vezes, a escola é o único equipamento público presente em determinada comunidade, associada diretamente ao bem-estar e à identidade local. Por isso, o Guia nasce com vocação para ampla aplicação, sempre com a ressalva de que precisa ser revisto e adequado quando aplicado em outros contextos.
7. Se adotado em maior escala, que impactos esse modelo pode gerar na cadeia produtiva da construção civil?
Se adotado em grande escala, o Guia pode gerar impactos significativos na cadeia produtiva da construção. A adoção de sistemas industrializados e pré-fabricados permite estruturar uma cadeia de suprimentos consistente em torno de um projeto público de grande abrangência territorial e social.
Vale lembrar que a rede de escolas públicas no Brasil tem dimensões impressionantes, com grande capilaridade social. Além das oportunidades econômicas, isso representa também um capital político e institucional relevante.
8. Como arquitetos, gestores públicos e instituições podem ter acesso ao Guia de Diretrizes?
A gestão sobre o Guia e sua disponibilização estão sob responsabilidade exclusiva do governo do Estado do Rio Grande do Sul.
9. Diante da repercussão nacional e internacional, o escritório está aberto a colaborar na adaptação dessas diretrizes para outros estados ou países?
Sim. Com a atenção nacional e internacional que o projeto recebeu, abre-se a possibilidade de colaborar em contextos semelhantes. Isso é resultado de um esforço que temos feito para nos posicionar nesse campo.
Somos muito motivados por ações de grande impacto social e, ao longo de quase trinta anos de prática, investimos no desenvolvimento de habilidades para lidar com situações críticas e complexas.

Assinam o projeto:
Arquitetura: Andrade Morettin Arquitetos Associados + Sauermartins
Instituições: Instituto Unibanco | SEDUC RS
Acústica: Alexandre Sresnewsky
Conforto Ambiental e Desempenho Bioclimático: Dolce Arquitetura | Modolce
Engenharia Estrutural (Concreto): Gamazen Engenharia
Engenharia Estrutural (Madeira): Marcel Farinha
Geotecnia: MFL Engenharia Projetos
Iluminação: Lodi Estúdio
Instalações Prediais e PPCI: Sistema Engenharia
Paisagismo: Capim Paisagens
