Por Virgínia Sodré
Engenheira Civil pela UFRN, Mestre em Hidráulica em Saneamento pela USP-EESC, com MBA de Negócios Internacionais pela FIA. CEO da InfinityTech (IFTH), atua há mais de 23 anos no mercado de saneamento e de águas e efluentes no Brasil.
Análise para o Imóvel Capital.
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A água assumiu um papel estratégico nas discussões sobre clima, infraestrutura e desenvolvimento urbano. O avanço do estresse hídrico afeta disponibilidade, qualidade, custo e condições regulatórias de acesso ao recurso.
O carbono colocou o clima no centro da estratégia; a água coloca o território no centro da resiliência. A viabilidade hídrica de um empreendimento não depende apenas de suas instalações, mas também da eficiência do saneamento e da drenagem urbana no entorno, da saúde da bacia hidrográfica e dos aquíferos, da qualidade do recurso e da gestão dos potenciais conflitos pelo uso da água.
Essa vulnerabilidade territorial já é uma realidade em São Paulo. Em setembro de 2025, a SP Águas declarou escassez hídrica quantitativa nas bacias do Alto Tietê e na porção paulista das bacias PCJ, suspendendo novas outorgas para usos não prioritários. A medida buscou preservar os mananciais e priorizar o abastecimento humano e a dessedentação animal.
Outra Deliberação da SP Águas em 2025 reforçou esse movimento ao integrar a análise de captações subterrâneas para abastecimento coletivo à atuação conjunta da SP Águas, CETESB e Vigilância Sanitária. Disponibilidade, qualidade da água, áreas contaminadas ou restritas e condições da bacia passaram a ter papel central na análise. Ter água subterrânea no terreno, portanto, não garante mais o acesso irrestrito ao recurso.
A pressão tende a aumentar com a urbanização. As regiões Nordeste, Sudeste e Sul concentram cerca de 83,4% da população, aproximadamente 89% do PIB industrial e 74% da produção agropecuária brasileira, mas dispõem de apenas 15,8% da disponibilidade hídrica natural. Até 2030, somente nas regiões Nordeste e Sudeste, estima-se a criação de 5,6 milhões de novas moradias, equivalentes a cerca de 1,3 milhão de novos edifícios.
A crise hídrica enfrentada pela Inglaterra em 2026 representa um importante alerta para o Brasil, evidenciando a necessidade de incorporar a eficiência hídrica ao planejamento urbano e ao desenvolvimento de novos empreendimentos. Nesse ano, quase 40% da população inglesa estava submetida a restrições temporárias de uso da água, enquanto 1.353 licenças de captação apresentavam limitações destinadas à preservação de rios e mananciais. Nesse contexto, os critérios de consumo per capita para novos empreendimentos tornam-se cada vez mais relevantes. No Reino Unido, o parâmetro de referência é de 125 L/pessoa/dia, sendo mais restritivo em determinadas localidades, como Londres, com 105 L/pessoa/dia, e Horsham, município próximo à capital, com 85 L/pessoa/dia. Esse cenário demonstra como a disponibilidade hídrica vem influenciando diretamente as políticas de gestão da água e os critérios de aprovação de novos empreendimentos.
O Brasil ainda não possui um marco nacional que vincule, de forma uniforme, a aprovação de novos empreendimentos à capacidade hídrica presente e futura da bacia e da infraestrutura de saneamento local. Temos avanços, como o estímulo federal ao aproveitamento de água de chuva e ao reúso não potável de águas cinzas. Contudo, ainda não há, por exemplo, uma autorização para o aproveitamento de água pluvial em áreas urbanas para fins potáveis, como já existe em outros países.
Isso não significa que o cenário inglês se repetirá de forma idêntica no Brasil. Mas a combinação de secas mais severas, calor extremo, urbanização acelerada, pressão sobre mananciais e infraestrutura insuficiente pode levar a respostas semelhantes: restrições de uso, condicionantes para novas captações, limites para novos empreendimentos, bem como uma tendência de indicadores de consumo de água eficientes, como já está acontecendo no Reino Unido, com exigências maiores de eficiência e estímulo à adoção de fontes alternativas.
É nesse contexto que a Valor da Água desenvolveu o Strategic Resilience Vision (SRV), uma solução que integra dados territoriais, climáticos, hídricos e operacionais para avaliar locais, ativos e investimentos. A plataforma transforma dados dispersos em evidências para apoiar decisões de localização, projeto, expansão, gestão operacional e adaptação.
Antes de definir a solução hídrica de um empreendimento, é preciso conhecer seus usos e o caminho da água no território: como a chuva incide sobre o lote; para onde escoa; onde há áreas de acumulação; qual é o potencial de infiltração e recarga; como se comporta o nível do lençol freático; quais são os riscos de inundação, contaminação ou escassez; e qual é a disponibilidade hídrica local, hoje e nos cenários climáticos futuros.
O SRV permite delimitar o território e o ativo, avaliar riscos hídricos, climáticos, regulatórios, operacionais e socioambientais, comparar alternativas de projeto e orientar investimentos mais resilientes. Essa visão integrada possibilita identificar as ações prioritárias para a bacia, que podem estar vinculadas à redução de demanda, ampliação de reservação, diversificação da matriz hídrica, controle de perdas, proteção de áreas de recarga de mananciais e adequação da infraestrutura de drenagem urbana interna ou externa à edificação, medida crítica em um contexto no qual boa parte dos municípios brasileiros não conta com uma infraestrutura de drenagem; 32,5% sequer possuem uma.
A construção civil é central nessa agenda, dado que as decisões tomadas na concepção dos empreendimentos definem seu consumo de água, energia e carbono por décadas. Toda água demanda energia para ser captada, tratada, distribuída, coletada e tratada como esgoto. Por isso, reduzir o consumo de água gera economia de energia, reduz emissões de carbono e diminui custos operacionais: gerir água é também gerir energia, clima e resiliência.
Medidas de eficiência podem trazer resultados expressivos. Em residências, hotéis, hospitais, academias e clubes, chuveiros eficientes reduzem simultaneamente o consumo de água e a energia necessária para seu aquecimento. Em uma simulação realizada para um novo empreendimento residencial com mais de 25 mil pessoas, a combinação de chuveiros eficientes e tecnologia para reduzir o desperdício durante o aquecimento indicou potencial de economia de aproximadamente 1,6 milhão de m³ de água potável por ano, equivalente a cerca de 634 piscinas olímpicas, e de R$ 30 milhões anuais.
A redução de demanda também pode diminuir a infraestrutura necessária de saneamento, o consumo de energia e as emissões associadas. No estudo, as premissas indicaram uma estação de tratamento de esgoto 40% menor, economia anual de aproximadamente 600 MWh e redução de emissões superior a 280 toneladas de CO₂.
Não existe uma solução única. Em empreendimentos residenciais, chuveiros e bacias sanitárias tendem a concentrar parcela relevante do consumo interno. Já em projetos com grandes áreas verdes, clubes, campos esportivos ou paisagismo expressivo, a irrigação pode se tornar uma das principais demandas hídricas, o que requer um projeto eficiente desde a concepção.
Nas edificações comerciais e, especialmente, nas torres corporativas, a demanda não potável costuma ser mais elevada. Além das bacias sanitárias, os sistemas de refrigeração, especialmente as torres de resfriamento, muitas vezes são os grandes consumidores de água. Nesses casos, a estratégia deve avaliar eficiência operacional, controle de perdas e purgas, qualidade da água, ciclos de concentração e oportunidades de substituir parcialmente a água potável por fontes alternativas compatíveis.
Em um mundo que constrói o equivalente a uma nova Paris em área edificada a cada cinco dias, as decisões tomadas hoje definirão o consumo de água, energia e carbono das cidades de amanhã. A eficiência hídrica deixa de ser apenas uma medida de economia: torna-se uma estratégia de adaptação climática, continuidade operacional, redução de custos e geração de valor no longo prazo.

