A discussão sobre qualidade dos espaços construídos começa a incorporar uma dimensão que ganha relevância para o mercado imobiliário: a relação entre arquitetura, saúde e bem-estar.
Conceitos como qualidade do ar, conforto térmico e acústico, iluminação, ergonomia, contato com a natureza e escolha de materiais podem deixar de ser tratados apenas como atributos subjetivos para integrar critérios técnicos de projeto.
Um exemplo dessa aplicação está na CASACOR RS 2026, que teve seis ambientes oficialmente certificados pelo GBC LIFE, metodologia do Green Building Council Brasil voltada à saúde e ao bem-estar no ambiente construído.

O processo contou com a atuação da Bgreen, consultoria especializada em sustentabilidade e saúde no ambiente construído, responsável pelo acompanhamento técnico dos projetos e pela integração dos critérios da certificação às propostas de cada ambiente.
A aplicação em projetos com usos e propostas diferentes permite observar como esses critérios podem ser incorporados ao processo de concepção, especificação e execução.
Para o mercado imobiliário, a experiência também levanta uma questão: até que ponto parâmetros de saúde e bem-estar podem passar dos ambientes de mostra para os empreendimentos residenciais e comerciais?
CASACOR usa ambientes como espaço de experimentação
A presença do GBC LIFE na edição deste ano acompanha uma discussão que vem ganhando espaço na arquitetura e no mercado imobiliário: como projetar ambientes considerando os efeitos que eles produzem sobre as pessoas.
Segundo Karina Capaverde, diretora da CASACOR RS, a certificação está relacionada à ampliação dessa discussão dentro da mostra.
“A presença dos ambientes certificados pelo GBC LIFE acompanha o movimento da CASACOR RS de ampliar a discussão sobre arquitetura, interiores, saúde, bem-estar e sustentabilidade, trazendo esses temas para a experiência da mostra.”
Para Karina, o formato da CASACOR permite aproximar conceitos e soluções do mercado porque reúne profissionais, fornecedores e público em torno de aplicações concretas.
“A CASACOR reúne profissionais, marcas e público em torno de soluções aplicadas. Esse formato permite apresentar ideias, testar possibilidades e aproximar o mercado de temas que vêm ganhando importância nos projetos residenciais, comerciais e imobiliários.”
Os seis ambientes certificados apresentam diferentes formas de incorporar os critérios do GBC LIFE ao projeto. Entre as soluções estão controle de iluminação e incidência solar, materiais de menor impacto e emissão, conforto acústico, ventilação, eficiência no uso de recursos, biofilia, adaptabilidade, durabilidade e reaproveitamento de elementos.

Como o GBC LIFE transforma bem-estar em critérios técnicos
Quando o mercado fala em saúde e bem-estar nos espaços, parte dessas características ainda é percebida de maneira subjetiva. O desafio está em traduzir essa percepção em decisões de projeto orientadas por critérios técnicos.
“O bem-estar tem uma dimensão sensorial e subjetiva, mas também pode, e deve, ser traduzido em parâmetros técnicos.”

Segundo Joana Giugliani, fundadora da Bgreen e profissional credenciada pelo Green Building Council Brasil, a metodologia GBC LIFE reúne conceitos consolidados de saúde e bem-estar e os transforma em critérios objetivos, capazes de orientar decisões relacionadas à qualidade do ar, ao conforto térmico e acústico, à iluminação, à ergonomia, à biofilia e à escolha dos materiais, entre outros aspectos.
Dessa forma, a metodologia oferece embasamento para confirmar, qualificar e aprofundar escolhas feitas durante o desenvolvimento do projeto. Um ambiente pensado para ser agradável ou acolhedor pode ter essas características analisadas a partir de critérios de projeto, especificação e execução.

O CASACOR LabStore, por exemplo, incorporou materiais reaproveitados da própria montagem, fibras naturais, tintas à base de água, revestimentos de baixa emissão de compostos orgânicos voláteis e carpete produzido com PET reciclado.
A certificação organiza essas boas práticas, estabelece métricas e confere credibilidade ao resultado.
Essa estrutura cria uma distinção importante para o mercado: comunicar que um empreendimento oferece bem-estar é diferente de demonstrar quais critérios foram utilizados para chegar a esse resultado.
Da mostra para o desenvolvimento imobiliário
A aplicação dos critérios pode orientar projetos mesmo quando a incorporadora opta por desenvolver padrões próprios em vez de buscar uma certificação formal.
Para Joana, os parâmetros do GBC LIFE podem servir de referência para novos empreendimentos, áreas comuns e unidades residenciais.
Isso pode envolver especificações de iluminação, ventilação, acústica e materiais, além de critérios para seleção de fornecedores e definição de soluções de longo prazo.
O conceito de ciclo de vida também amplia essa análise. A escolha de um material passa a considerar sua origem, composição, emissões, manutenção, possibilidade de desmontagem, reutilização e destinação futura.
Quando esses critérios passam a integrar padrões da incorporadora, deixam de depender exclusivamente de decisões pontuais de cada projeto ou profissional e podem formar uma cultura interna de desenvolvimento.
“Quando esses critérios se tornam padrões da incorporadora, eles passam a formar uma cultura de projeto, capaz de gerar ambientes mais saudáveis, eficientes, duráveis e alinhados às expectativas contemporâneas de quem compra, ocupa e utiliza os espaços”, afirma Joana.
O que o case revela sobre saúde e bem-estar

Os seis ambientes certificados foram concebidos por profissionais e marcas com propostas distintas. Para Felipe Faria, CEO do Green Building Council Brasil, a experiência também contribui para ampliar a discussão sobre a relação entre arquitetura de interiores e qualidade dos espaços construídos.
“Os seis ambientes buscaram maximizar e evidenciar aspectos de conforto, saúde e bem-estar na arquitetura de interiores com práticas e soluções replicáveis. As soluções passaram por inteligência do projeto arquitetônico, escolha mais criteriosa de materiais de construção ou até mesmo novas tecnologias e inovações”, afirma.
Na avaliação do executivo, a relevância do case está em chamar atenção para os efeitos que a qualidade dos espaços construídos pode produzir sobre a saúde, o bem-estar, a experiência e as relações pessoais que acontecem nesses ambientes.
Um exemplo é o Dormitório da Menina, de Aclaene de Mello, concebido para acompanhar diferentes fases da infância e da adolescência. A adaptabilidade reduz a necessidade de substituição de mobiliário e materiais ao longo do tempo e introduz o ciclo de vida do ambiente na própria concepção.

Outro exemplo está no Café Fibraplac, da KV Arquitetura, que combina flexibilidade de uso, soluções acústicas, vegetação e materiais de menor impacto. O ambiente também incorpora painéis de madeira com certificação FSC, baixo teor de formaldeído e tintas de baixa emissão de compostos orgânicos voláteis.

Elias Paludo leva critérios de bem-estar ao desenvolvimento do produto
A experiência da CASACOR encontra paralelo em empreendimentos que já incorporam esses critérios ao desenvolvimento imobiliário. Um exemplo é o Lucce, da Elias Paludo Incorporações, em Canela, que trabalha com o GBC LIFE, voltado à saúde e ao bem-estar.
Segundo Ramadan Elias Paludo, engenheiro civil e diretor da empresa, a certificação formaliza uma preocupação presente na atuação da incorporadora.
“A Elias Paludo sempre, historicamente, teve uma preocupação genuinamente séria com o meio ambiente e com a sustentabilidade. Nós somos membros do GBC há muito tempo e já praticamos ações sustentáveis desde o primeiro prédio.”
Ao explicar as decisões tomadas no Lucce, Ramadan resume a lógica adotada:
“Na prática, os critérios relacionados ao conforto, à qualidade ambiental e ao bem-estar passam principalmente pela escolha dos materiais, que é indispensável, mas também pelas características do próprio projeto.”
Entre as soluções adotadas estão ventilação superior ao mínimo, iluminação acima da média e desempenho acústico superior ao nível mais alto da norma utilizada como referência. Segundo Ramadan, essas decisões envolvem arquitetura, engenharia, instalações e especificação de materiais.

A experiência também mostra que a adoção desses critérios pode caber no orçamento previsto para a obra. Segundo o executivo, o empreendimento mantém o valor de metro quadrado de obra planejado pela empresa.
“É muito mais engenharia e arquitetura envolvida do que propriamente escolher o material mais caro.”
Critérios que podem entrar no produto imobiliário
A aplicação desses critérios também pode ser observada em empreendimentos imobiliários certificados pelo GBC Brasil. Felipe Faria cita experiências em que diferentes parâmetros de desempenho foram avaliados a partir de referências técnicas.
“Em alguns projetos certificados na nossa ferramenta GBC Casa&Condomínio, temos situações em que os resultados em eficiência energética apresentaram uma redução de 50% comparado a norma técnica PROCEL EDIFICA, bem como um resultado no nível superior de desempenho térmico e lumínico da Norma de Desempenho (NBR 15.575). São situações em que o conforto está alinhado com a eficiência energética através da melhor arquitetura e engenharia.”
Já no GBC LIFE, a atenção está voltada ao ambiente interno e às condições que influenciam saúde, conforto e bem-estar. Segundo Faria, a metodologia pode evidenciar as decisões consideradas no projeto e, com a instalação de sensores, permitir o acompanhamento de parâmetros como concentração de CO₂, formaldeídos, compostos orgânicos voláteis e particulados durante a operação dos espaços.
Para as incorporadoras, essa abordagem abre espaço para incorporar critérios de saúde e bem-estar aos processos de desenvolvimento do produto, desde a concepção até os memoriais, especificações e padrões internos.
A experiência da CASACOR mostra uma possibilidade de aplicação em escala de projeto. O movimento seguinte está relacionado à capacidade de transformar esses parâmetros em critérios incorporados ao desenvolvimento dos empreendimentos.
Nesse processo, saúde, conforto, eficiência, materiais e qualidade ambiental passam a ser considerados desde as primeiras decisões de produto, criando uma conexão entre arquitetura, engenharia, especificação e operação.
Para o mercado imobiliário, a questão central passa a ser como medir, documentar e incorporar esses atributos ao produto de forma consistente.
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