O Sinduscon-RS promoveu, nesta segunda-feira (24/08), na sede da entidade, o Painel Sinduscon-RS Eleições 2026, evento que reuniu candidatos ao Governo do Rio Grande do Sul para apresentar propostas voltadas à construção civil.
Dos quatro nomes mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais e convidados pela entidade — Gabriel Souza (MDB), Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB) —, apenas Gabriel Souza e Marcelo Maranata confirmaram presença.

Na abertura, o presidente do Sinduscon-RS, Rafael Garcia, registrou o pesar da entidade pela ausência dos dois candidatos e reforçou o caráter apartidário do painel.
“O Sinduscon-RS não tem candidato, é apartidário. O Sinduscon-RS tem pautas”, afirmou.
Segundo ele, o setor da construção civil movimenta mais de 90 segmentos da cadeia produtiva e gera mais de 500 mil empregos diretos e indiretos no Estado, o que reforça a relevância do diálogo entre o setor produtivo e os candidatos ao Governo do RS.
Rafael Garcia também elencou quatro desafios prioritários para o próximo governo: investimento e competitividade para atrair novos negócios; ampliação do crédito imobiliário, com destaque para um papel mais estratégico do Banrisul no financiamento à produção; segurança jurídica e agilidade nos processos de licenciamento; e enfrentamento da falta de mão de obra qualificada no setor.
Foi nesse contexto que o painel — dividido em blocos temáticos com perguntas elaboradas pelo Sinduscon-RS — trouxe as propostas dos dois candidatos presentes para cada um dos temas.
Competitividade e desenvolvimento econômico
O primeiro tema tratou do papel da construção civil na execução de obras estruturantes e na atração de investimentos, citando projetos como o Porto Meridional, a ampliação da CMPC em Barra do Ribeiro e a instalação de data centers em Eldorado do Sul. A pergunta do Sinduscon-RS teve dois eixos: qual o plano de investimentos em obras estruturantes por região e como o Conselho Diretor do FUNDOPEM poderia ser orientado para estimular a contratação de engenharia gaúcha.

Gabriel Souza (MDB) citou a ampliação de mais de 800 quilômetros na malha rodoviária estadual asfaltada — um aumento de cerca de 10% — e destacou o Plano Rio Grande, com 240 obras de reconstrução ligadas às enchentes, entre elas obras de comportas e diques na Grande Porto Alegre, e um novo sistema de diques que, segundo ele, somará cerca de 150 quilômetros de extensão no Estado. Sobre o FUNDOPEM, defendeu a priorização de mão de obra e empresas locais nos novos empreendimentos e anunciou a criação de um comitê de acompanhamento da reforma tributária, com participação do Sinduscon-RS, já que os incentivos vinculados ao fundo e ao ICMS serão extintos a partir de 2029.
Marcelo Maranata (PSDB) condicionou qualquer plano de investimento estrutural à renegociação da dívida do Estado com a União, afirmando ser pré-requisito para viabilizar novas obras. Como prioridades regionais, citou a conclusão do lote 4 do Porto de Rio Grande, a rodovia (RSC) 470 — que inclui a ponte sobre o rio Jacuí ligando Triunfo a São Jerônimo —, a BR-392, que liga o município de Rio Grande a Porto Xavier, e a BR-448, na Região Metropolitana, além de investimentos em hidrovias, argumentando que o transporte fluvial é mais barato que o rodoviário. Não apresentou uma proposta direta para o FUNDOPEM, concentrando a resposta na agenda de infraestrutura e na renegociação da dívida.
Mercado imobiliário e crédito habitacional
No segundo tema, a pergunta abordou o fortalecimento da política estadual de crédito habitacional para a produção, com foco no papel do Banrisul e em parcerias com o setor privado para ampliar o financiamento a novos empreendimentos.

Marcelo Maranata (PSDB) criticou de forma mais ampla o sistema financeiro nacional, dizendo esperar que o país tenha coragem de remunerar melhor a poupança para estimular o investimento produtivo. Especificamente sobre o Banrisul, propôs usar parte do lucro do banco — que classificou em R$ 1,6 bilhão no último ano — para criar um fundo garantidor voltado ao financiamento imobiliário e ao crédito para pequenos empreendedores e produtores rurais, com juros mais baixos. Também defendeu que o Sinduscon-RS tenha assento nas decisões do banco sobre linhas de crédito para o setor da construção.
Gabriel Souza (MDB) afirmou que o Banrisul retomou a concessão de crédito imobiliário após um período de interrupção e citou lucro superior a R$ 3 bilhões no último exercício, atribuído a uma gestão técnica do banco. Comprometeu-se a manter o Banrisul público e anunciou a criação de subsídios de juros em linhas de crédito habitacional para recortes específicos da população — como mulheres vítimas de violência doméstica e jovens do campo —, com o objetivo declarado de aquecer o financiamento também para pequenas e médias construtoras.
Habitação de interesse social
O terceiro assunto tratou do déficit habitacional do Estado, que segundo a Fundação João Pinheiro superava 200 mil moradias em 2024. A pergunta questionou os planos para ampliar a oferta de habitação de interesse social e a continuidade do programa estadual Porta de Entrada, que desde junho de 2024 já beneficiou mais de 12 mil famílias com mais de R$ 270 milhões em subsídios.
Marcelo Maranata (PSDB) apresentou como referência o programa “Agora é Meu”, executado por ele como prefeito de Guaíba, voltado à regularização fundiária e à entrega de matrícula de imóveis a famílias, associado a obras de pavimentação e iluminação nas comunidades atendidas. Disse pretender replicar o modelo em nível estadual, mas afirmou não ver, hoje, margem para ampliar recursos de programas habitacionais sem antes renegociar a dívida do Estado com a União.
Gabriel Souza (MDB) afirmou que o Estado retomou a construção de casas populares após um longo período sem novas unidades e citou o programa “A Casa é Sua”, com 4.600 moradias entre 40 e 47 m² em parceria com prefeituras, que cedem terrenos e fazem a urbanização dos lotes. Sobre o Porta de Entrada, classificou-o como o programa mais barato e mais eficiente da atual gestão, por injetar recursos diretamente na iniciativa privada via entrada de financiamento do Minha Casa Minha Vida, e afirmou pretender ampliá-lo com recursos do Tesouro ou de uma futura renegociação da dívida estadual, que segundo ele deve avançar a partir de junho de 2027.
Licenciamento ambiental e desenvolvimento urbano
O quarto tema discutiu prazos de licenciamento ambiental e insegurança jurídica em empreendimentos imobiliários e loteamentos, especialmente na aplicação da Lei da Mata Atlântica, perguntando como equilibrar proteção ambiental com agilidade e previsibilidade nos processos.
Marcelo Maranata (PSDB) citou a redução do prazo de emissão de alvarás em Guaíba, de quatro meses para cerca de 15 horas, atribuída à capacitação da equipe técnica municipal, e defendeu retirar o licenciamento ambiental da estrutura da FEPAM, transferindo a atribuição para a Secretaria do Meio Ambiente, modelo que citou como já adotado em Mato Grosso e Minas Gerais. Também citou o caso da CMPC, atribuindo atrasos à atuação de um promotor, e defendeu maior agilidade do Estado para não perder o investimento.
Gabriel Souza (MDB) apresentou dados históricos: o prazo médio de licenciamento ambiental no Estado era de 1.100 dias no início da gestão Sartori e está hoje em 120 dias, patamar que classificou como ainda insatisfatório. Mencionou a emissão da primeira licença para uma mina de fosfato no Estado após três anos de disputa judicial e a criação do Sistema Online de Licenciamentos (SOL). Defendeu ampliar a municipalização do licenciamento ambiental, citou acordo com o Ministério Público para o Bioma Pampa e reconheceu maior burocracia nos casos que envolvem a Mata Atlântica, em razão da exigência de convênio específico com os municípios.
Mão de obra e qualificação profissional
O último bloco temático abordou a escassez de mão de obra qualificada e a informalidade no setor, questionando a proposta de cada candidato para a Secretaria Estadual do Trabalho e para a Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS).
Gabriel Souza (MDB) citou os programas Qualifica RS, presente em 300 municípios, e Carretas do Saber, em parceria com o Senai, que juntos já qualificaram cerca de 40 mil e 20 mil profissionais, respectivamente. Anunciou o programa “Profissão na Mão”, que amplia o ensino médio em tempo integral com formação técnica simultânea — de 5 mil para 50 mil vagas neste ano, com meta de mais 80 mil vagas —, financiado, segundo ele, por recursos equivalentes a 1% da economia de juros obtida com a adesão ao Propag, cerca de R$ 600 milhões, destinados à compra de vagas no Sistema S e em universidades comunitárias.
Marcelo Maranata (PSDB) relacionou a informalidade à rejeição de parte dos jovens ao regime CLT e propôs adaptar ao Rio Grande do Sul o programa “Construir”, de Joinville (SC), voltado a inserir jovens em canteiros de obra desde o ensino médio, em parceria com o Sistema S e prefeituras, com fornecimento de uniforme, vale-transporte e alimentação, e garantia de manutenção de benefícios sociais durante a qualificação.
O que fica do painel
Com isso, o Painel Sinduscon-RS Eleições 2026 deixou registradas as principais divergências e convergências entre os dois candidatos presentes em temas estruturantes para incorporadoras, investidores e profissionais da construção civil no Rio Grande do Sul — do crédito habitacional via Banrisul à agilidade no licenciamento ambiental. A ausência de Juliana Brizola e Luciano Zucco, no entanto, limitou o alcance do debate como ferramenta de comparação entre as quatro principais candidaturas ao Governo do Estado.

