A industrialização da construção começa a ocupar um espaço mais estratégico no mercado imobiliário. O debate deixou de estar concentrado apenas na utilização de módulos construtivos e passou a envolver produtividade, escala, previsibilidade e eficiência operacional.
Para incorporadoras, o interesse cresce em um cenário marcado por custos elevados, escassez de mão de obra qualificada e necessidade de maior controle sobre prazos e investimentos.

A discussão esteve no centro do COP Construção Civil, iniciativa do Tijolo Hub realizada na sede da Pertho, no Iguatemi Corporate, em Porto Alegre. O encontro reuniu profissionais do setor para analisar como conceitos da indústria podem ser incorporados ao desenvolvimento imobiliário.
A palestra foi conduzida por Ricardo Mateus, fundador da Brasil ao Cubo, com mediação do engenheiro Marcelo Carraro, sócio-diretor da Pertho.
A experiência apresentada mostrou que o principal desafio da construção industrializada não está mais em comprovar sua viabilidade técnica, mas em transformar soluções construtivas em modelos capazes de operar com escala.
Da construção modular à industrialização dos processos

Um dos principais pontos apresentados por Ricardo Mateus foi a necessidade de ampliar a compreensão sobre industrialização.
“Industrialização para nós não é fazer o módulo.”
Segundo o executivo, o conceito envolve incorporar princípios da manufatura à construção civil, como padronização, repetição, controle de processos e melhoria contínua.
A diferença está na forma de produzir. Enquanto a construção tradicional costuma ser organizada empreendimento por empreendimento, a lógica industrial busca reduzir variabilidades e criar processos replicáveis.
Essa mudança aproxima a construção civil de setores que há décadas trabalham com produção seriada.
Para as incorporadoras, o impacto está na possibilidade de revisar etapas que vão desde a concepção dos projetos até a gestão de fornecedores e planejamento financeiro dos empreendimentos.
A transição de projetos personalizados para produção em escala

A trajetória da Brasil ao Cubo ilustra um movimento que também aparece em outros segmentos da construção industrializada.
Em uma primeira fase, a empresa desenvolveu soluções para diferentes demandas, incluindo hospitais, hotéis, edifícios corporativos e outros empreendimentos.
Esse modelo demonstrou a capacidade técnica da construção modular, mas apresentava uma limitação: cada projeto exigia adaptações específicas, reduzindo os ganhos de produtividade.
O próximo desafio passou a ser transformar a experiência acumulada em uma linha de produtos mais padronizada.
A lógica é semelhante à de outros setores industriais: quanto maior a repetição dos processos, maior a possibilidade de reduzir custos e aumentar eficiência.
Segundo Mateus, a empresa passou a buscar referências fora da construção civil para estruturar essa transformação.
“A gente não foi se espelhar na construção civil. A gente foi se espelhar na indústria.”
O aprendizado da indústria automobilística
Um dos exemplos apresentados durante a palestra foi a aproximação com a indústria automobilística, especialmente a partir de uma visita realizada à Marcopolo, em 2017.
A comparação evidencia uma diferença estrutural entre os setores.
Enquanto a indústria trabalha com processos altamente organizados, controle de etapas e produção repetível, a construção civil historicamente opera com maior personalização e menor previsibilidade.
Segundo Mateus, a reflexão surgiu a partir de uma pergunta central:
“Por que a construção civil não consegue aplicar uma lógica de linha de montagem?”
A partir desse questionamento, a empresa iniciou um processo de implantação de conceitos de Lean Manufacturing, buscando organizar a produção com maior controle sobre materiais, etapas e qualidade.
O movimento representa uma mudança de abordagem: o foco deixa de estar apenas no sistema construtivo e passa a envolver engenharia de produção.
O ganho econômico está além do custo por metro quadrado
Um dos principais pontos para incorporadores está relacionado ao impacto financeiro da redução do prazo de execução.
Segundo Mateus, avaliar a construção industrializada apenas pelo custo direto da obra limita a análise.
O principal ganho pode estar no ciclo financeiro do empreendimento.
Uma obra executada em menor prazo reduz a exposição a oscilações de custos, diminui despesas indiretas e permite antecipar o início da geração de receita.
Na prática, o prazo passa a ser uma variável econômica.
Para investidores e incorporadoras, uma redução no ciclo de produção pode alterar indicadores como necessidade de capital, velocidade de retorno e desempenho financeiro do projeto.
A construção industrializada pode combinar diferentes sistemas
Outro ponto apresentado foi que a adoção da industrialização não significa necessariamente substituir todos os métodos tradicionais.
A integração entre sistemas aparece como uma alternativa para diferentes tipos de empreendimentos.
Estruturas como garagens, pilotis e áreas comerciais podem continuar utilizando soluções convencionais, enquanto pavimentos superiores podem receber componentes industrializados.
Esse modelo híbrido amplia as possibilidades de aplicação e permite adaptar a tecnologia às características de cada projeto.
A flexibilidade arquitetônica também foi destacada como um fator relevante. Fachadas, acabamentos e soluções de implantação podem receber diferentes configurações, mantendo a identidade dos empreendimentos.
Escala depende de uma nova organização da cadeia produtiva
Apesar dos avanços, a industrialização ainda enfrenta desafios para ampliar sua participação no mercado.
Durante o encontro, empresários e profissionais do setor levantaram questões relacionadas à adaptação dos projetos, qualidade dos acabamentos, logística, fornecedores e manutenção dos padrões de desempenho.
Um dos principais pontos é que a industrialização exige mudanças antes mesmo do início da obra.
Projetos precisam ser desenvolvidos considerando o sistema produtivo escolhido, fornecedores devem estar preparados e a cadeia precisa trabalhar de forma integrada.
A logística também representa um fator determinante. Como o transporte influencia diretamente o custo dos módulos, a proximidade entre unidades produtivas e mercados consumidores passa a ser estratégica.
Por isso, a criação de estruturas regionais de produção aparece como um caminho para ampliar a competitividade do modelo.
O que o incorporador precisa avaliar

A discussão mostra que a industrialização da construção não deve ser analisada apenas como uma alternativa tecnológica.
Ela envolve decisões relacionadas ao produto imobiliário, ao planejamento financeiro e à estratégia operacional da empresa.
Antes de adotar esse modelo, incorporadores precisam avaliar:
1. Adequação do projeto ao sistema produtivo
A industrialização exige decisões antecipadas e maior integração entre arquitetura, engenharia e produção.
2. Potencial de repetição e escala
Quanto maior a possibilidade de padronização, maior tende a ser o ganho de eficiência.
3. Impacto financeiro do prazo
A redução do ciclo de obra pode influenciar custos, capital investido e velocidade de retorno.
4. Estrutura da cadeia de fornecedores
O desempenho depende da capacidade de integração entre indústria, fornecedores e obra.
5. Logística e localização da produção
A distância entre fábrica e empreendimento pode influenciar diretamente a viabilidade econômica.
A industrialização da construção dificilmente substituirá os métodos tradicionais no curto prazo. O movimento, porém, indica uma mudança importante na forma como o setor imobiliário avalia produtividade e eficiência.
A questão central deixa de ser apenas se a tecnologia funciona. O desafio passa a ser identificar em quais empreendimentos ela gera vantagem competitiva, quais adaptações exige da cadeia produtiva e como pode contribuir para um desenvolvimento imobiliário mais previsível e eficiente.

