Em um momento em que o mercado imobiliário brasileiro busca cada vez mais diferenciação por meio de conceito, desempenho e experiência, a arquitetura assume um papel que ultrapassa a forma e passa a operar como estratégia de produto.

Nesta entrevista exclusiva, o Imóvel Capital conversa com Douglas Tolaine, Design Director e Principal da Perkins&Will São Paulo, sobre a atuação do escritório no Brasil, o papel da arquitetura na estruturação de empreendimentos e a integração entre repertório global e leitura local.

O destaque da conversa é o Ereditá Moinhos, primeiro projeto da Perkins&Will em Porto Alegre, desenvolvido em parceria com a Cyrela. O empreendimento, localizado no bairro Moinhos de Vento, marca a chegada de uma abordagem internacional ao contexto urbano da capital gaúcha, combinando preservação histórica, linguagem contemporânea e estratégia de produto.
Perkins&Will: arquitetura como estratégia.
POSICIONAMENTO: MÉTODO, REPERTÓRIO E ATUAÇÃO NO BRASIL
1. Como se estrutura hoje a atuação da Perkins&Will no Brasil e o que define o posicionamento do escritório no mercado?
A Perkins&Will atua no Brasil integrada a uma rede global, o que nos permite combinar repertório internacional com uma leitura profunda dos contextos locais. Nosso posicionamento é definido pela capacidade de transformar estratégia em arquitetura, conectando inovação, desempenho, responsabilidade ambiental e relevância cultural.
Trabalhamos de forma multidisciplinar, com processos estruturados que garantem consistência e qualidade ao longo de todas as etapas do projeto. Esse modelo nos permite atuar de maneira estratégica no desenvolvimento de produtos imobiliários mais qualificados e duradouros.
2. O que diferencia, na prática, a forma como vocês abordam o desenvolvimento de um projeto imobiliário?
A principal diferença está na forma como integramos, desde o início, as dimensões de produto, experiência e viabilidade. Não tratamos a arquitetura como etapa final, mas como ferramenta estratégica que orienta decisões fundamentais do empreendimento.
Isso envolve análise de contexto, comportamento do usuário e tendências globais, sempre alinhadas ao objetivo de criar valor de longo prazo.
O resultado são projetos mais coerentes, com maior previsibilidade e melhor desempenho no mercado.
3. Como a unidade brasileira dialoga com o repertório global do escritório?
A unidade brasileira opera em constante troca com o repertório global da Perkins&Will, incorporando referências, metodologias e aprendizados de diferentes mercados.
Ao mesmo tempo, esse repertório é reinterpretado a partir das especificidades culturais, climáticas e urbanas de cada contexto local. Esse equilíbrio evita a padronização e assegura uma arquitetura autêntica e pertinente. É nessa interseção que conseguimos gerar soluções inovadoras e consistentes.
4. O que diferencia a atuação de vocês em relação a outros escritórios que atuam no mercado imobiliário nacional?
Nos diferenciamos pela abordagem estratégica e pela capacidade de atuar além do desenho, influenciando diretamente a definição do produto.
Nossa prática combina rigor técnico, visão de negócio e sensibilidade cultural, resultando em projetos mais completos e consistentes. Além disso, o acesso a um repertório global amplia nossa capacidade de inovação e antecipação de tendências, gerando empreendimentos mais bem posicionados e com maior longevidade.
A EVOLUÇÃO DO PAPEL DA ARQUITETURA
5. Em que momento a arquitetura passa a influenciar a definição do produto?
A arquitetura influencia o produto desde o início, na definição dos conceitos e diretrizes do empreendimento. É nesse momento que decisões fundamentais — como implantação, tipologia e experiência do usuário — são estabelecidas.
Quando integrada desde cedo, a arquitetura deixa de ser apenas forma e passa a estruturar o valor do projeto. Esse alinhamento inicial reduz riscos e melhora a performance do produto ao longo do tempo.
6. O que diferencia um projeto bem resolvido de um produto imobiliário bem estruturado?
Um projeto bem resolvido atende aos requisitos técnicos e formais com eficiência. Já um produto bem estruturado vai além, incorporando estratégia, posicionamento e aderência ao mercado.
Ele considera o ciclo completo do empreendimento, da concepção à operação e valorização ao longo do tempo. Buscamos sempre essa segunda condição, onde arquitetura e estratégia atuam de forma integrada.
7. Quais decisões de projeto mais impactam o resultado — e que normalmente não são percebidas pelo cliente?
Decisões de implantação, orientação solar, fluxos internos e organização programática têm grande impacto no desempenho do projeto, ainda que nem sempre sejam percebidas de forma direta.
Essas escolhas influenciam conforto ambiental, eficiência operacional e qualidade de uso no dia a dia. Também são determinantes para a viabilidade econômica e para a valorização do empreendimento. Nesse nível, a arquitetura atua como ferramenta estratégica.
REPERTÓRIO GLOBAL, LEITURA LOCAL
8. O que nunca muda no método de vocês — e o que sempre precisa ser adaptado a cada cidade?
O que nunca muda é o nosso compromisso com uma abordagem baseada em pesquisa, análise e integração multidisciplinar. Trabalhamos com processos consistentes que garantem qualidade e coerência em qualquer contexto.
Por outro lado, cada cidade exige uma leitura específica, considerando cultura, clima, legislação e dinâmica urbana. Essa capacidade de adaptação é essencial para gerar projetos relevantes e contextualizados.
9. O Brasil é um país de realidades muito distintas. O que muda, na prática, ao projetar para diferentes regiões?
O que muda é a forma como interpretamos cada contexto para responder adequadamente às suas especificidades.
Clima, cultura local, comportamento do usuário e dinâmica urbana influenciam diretamente as decisões de projeto. Ao mesmo tempo, mantemos uma base metodológica consistente. O resultado são soluções únicas, mas com o mesmo nível de rigor e qualidade.
10. Existe algum aspecto do mercado do Rio Grande do Sul que exigiu uma adaptação mais profunda na forma de pensar o projeto?
No Rio Grande do Sul, a forte valorização da identidade cultural e do patrimônio histórico exigiu uma abordagem ainda mais sensível ao contexto.
Em projetos como o Ereditá Moinhos, a presença de elementos históricos relevantes orienta decisões centrais de arquitetura, reforçando a importância de equilibrar inovação e preservação.
DECISÃO DE PROJETO COMO GESTÃO DE RISCO
11. De que forma decisões de arquitetura podem reduzir risco em um empreendimento?
Decisões bem fundamentadas de arquitetura aumentam a previsibilidade do projeto e reduzem incertezas ao longo do desenvolvimento.
Isso inclui escolhas de tipologia, eficiência de planta, custos construtivos e experiência do usuário. Quando alinhadas à estratégia do produto, essas decisões contribuem para maior segurança comercial e operacional.
12. É possível afirmar que um bom projeto aumenta a previsibilidade comercial de um empreendimento? Como?
Sim. Um bom projeto organiza de forma clara os atributos de valor percebidos pelo mercado.
Ele antecipa demandas, melhora a leitura do produto e reduz inconsistências que poderiam impactar sua aceitação. Isso contribui para uma comunicação mais assertiva e uma experiência mais coerente, aumentando a previsibilidade comercial.
PRODUTO E EXPERIÊNCIA
13. O que define hoje a experiência de morar — além de metragem e tipologia?
A experiência de morar está relacionada à qualidade dos espaços, à integração com a cidade e ao bem-estar proporcionado pelo conjunto do projeto.
Iluminação natural, ventilação, áreas comuns qualificadas e espaços de convivência têm papel central. Também ganham relevância a flexibilidade e a adaptação aos diferentes modos de vida.
14. Existe alguma mudança recente no perfil do usuário que já impacta diretamente o desenho dos projetos?
Sim. Observamos uma valorização crescente de bem-estar, flexibilidade e integração entre vida pessoal e trabalho.
Isso se traduz em espaços mais versáteis, áreas compartilhadas qualificadas e maior conexão com o entorno. A sustentabilidade também se torna cada vez mais relevante, influenciando diretamente o desenho dos empreendimentos.
QUANDO SUSTENTABILIDADE DEIXA DE SER DISCURSO
15. Em que momento sustentabilidade passa a ser uma decisão de projeto?
Na Perkins&Will, sustentabilidade é um princípio estruturante desde as primeiras decisões de projeto.
Ela orienta escolhas de implantação, materialidade, eficiência energética e desempenho ambiental. Não é um complemento, mas parte integrada do processo de concepção.
16. Como equilibrar custo, eficiência e valor percebido quando o tema é sustentabilidade?
O equilíbrio vem da integração entre estratégia e projeto desde o início.
Ao incorporar sustentabilidade de forma estruturada, conseguimos otimizar recursos e evitar custos adicionais tardios. Além disso, muitas soluções geram eficiência operacional e valorização do ativo, melhorando o retorno ao longo do tempo.
ARQUITETURA, LIQUIDEZ E TEMPO
17. Que tipo de decisão de projeto contribui para a longevidade de um produto?
Decisões que priorizam flexibilidade, qualidade construtiva e relevância urbana são fundamentais.
Projetos bem implantados, com boa relação com o entorno e soluções duráveis, tendem a manter valor ao longo do tempo. Materiais e organização espacial também são determinantes.
18. Existe relação direta entre arquitetura e liquidez ao longo do tempo?
Sim. Quando o projeto incorpora atributos que permanecem relevantes ao longo dos anos, a relação é direta.
Arquiteturas bem resolvidas, com identidade forte e qualidade de uso, mantêm maior atratividade no mercado, impactando diretamente a liquidez do empreendimento.
PRODUTO E LINGUATEM GLOBAL
19. O que caracteriza um produto imobiliário com linguagem mais internacional?
É aquele que incorpora referências contemporâneas globais em espaço, materialidade e experiência.
Isso inclui clareza formal, integração entre interior e exterior e qualidade ambiental. Mas essa linguagem precisa ser adaptada ao contexto local para garantir autenticidade.
20. Como equilibrar repertório global com identidade local sem cair na padronização?
O equilíbrio vem da interpretação, não da reprodução.
Utilizamos referências globais como base, sempre traduzidas a partir das especificidades culturais e urbanas de cada lugar. No Ereditá Moinhos, isso se materializa no diálogo entre arquitetura contemporânea e patrimônio histórico.
EREDITÁ MOINHOS
21. O que motivou a entrada em Porto Alegre e o desenvolvimento do Ereditá Moinhos?
A entrada em Porto Alegre partiu da convergência entre uma oportunidade estratégica e um contexto urbano extremamente rico culturalmente.

O bairro Moinhos de Vento, no município de Porto Alegre, reúne forte identidade e valor histórico, em diálogo direto com a abordagem da Perkins&Will de integrar arquitetura contemporânea ao contexto local.
22. O bairro Moinhos de Vento tem uma identidade muito clara. Como isso influenciou o projeto?
A identidade do bairro foi ponto de partida determinante.
A estratégia foi estabelecer um diálogo respeitoso entre o novo e o existente, evitando descaracterizações. O edifício se posiciona como complemento às casas históricas, criando um contraste equilibrado de linguagem, escala e materialidade.
23. O projeto envolve casas históricas existentes. Vocês participaram do retrofit? Como isso influenciou as decisões de arquitetura?

O projeto foi concebido a partir da valorização das casas históricas existentes, elementos fundamentais da memória urbana local.
Ainda que o retrofit tenha diretrizes específicas, nossa atuação esteve ligada à forma como o novo edifício se implanta e se relaciona com essas estruturas, orientando decisões de volumetria, implantação e linguagem arquitetônica.
24. Houve estratégia de preservação dessas construções? Como foi conduzido esse processo?
Sim. Houve uma estratégia clara de preservação, com o objetivo de manter a integridade das casas históricas e evidenciar seu valor cultural.
A proposta cria espaços de convivência que reforçam sua presença no cotidiano do empreendimento, atuando como mediador entre preservação e transformação urbana.
25. Como o Ereditá Moinhos traduz, na prática, linguagem, interpretação e estratégia?

O Ereditá Moinhos sintetiza essa abordagem ao unir leitura de contexto, repertório global e estratégia de produto.
A linguagem arquitetônica contemporânea nasce da interpretação da história local, traduzida em materialidade, transparência e integração urbana. O projeto incorpora ainda atributos de valor como bem-estar, sustentabilidade e longevidade, consolidando sua proposta como produto imobiliário de alta complexidade e coerência.
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SERVIÇO
Projeto de Arquitetura: Perkins&Will São Paulo
Site: www.perkinswill.com/studio/sao-paulo
Instagram: @perkinswill_br
Endereço: Rua Henrique Schaumann, 270 – 9º – São Paulo (SP)
Imagens: Vista (Render) Neorama
Ereditá Moinhos
Incorporação: Cyrela Goldsztein | @cyrelasulparcerias
Site: www.ereditamoinhos.com
Instagram: @cyrelasulparcerias
Endereço: R. Marquês do Herval, 82 – Moinhos de Vento – Porto Alegre (RS)

