Antes de existir um empreendimento, havia uma casa.
Na Rua Marquês do Herval, desde 1928, a residência desenhada pelos arquitetos Eduardo e Oscar De Camillis abriga uma narrativa rara em Porto Alegre — uma história de jardins, música, natureza e permanência. Um pequeno oásis doméstico no Moinhos de Vento.

É desse patrimônio — e não apesar dele — que nasce o Marquês 650, empreendimento da Woss Incorporadora com arquitetura da OSPA, em diálogo com o casarão histórico preservado no terreno, cuja intervenção de restauro é assinada pelo arquiteto Evandro Eifler Júnior.
Em um momento em que tantos projetos urbanos ainda operam pela lógica da substituição, o empreendimento propõe outro gesto.
Inserido em um contexto que articula preservação e transformação, o empreendimento mobiliza temas contemporâneos como patrimônio, reuso, gentileza urbana e a responsabilidade de intervir em territórios carregados de identidade.
Como se desenha o novo sem romper a memória do lugar? Como a arquitetura contemporânea dialoga com um patrimônio sem mimetizá-lo? E como essa visão se traduz em produto, cidade e valor?

Para refletir sobre essas questões, o Imóvel Capital conversou com Carolina Souza Pinto, sócia-fundadora da OSPA e diretora da OSPA architecture, e Henrique Clezar, sócio e senior architect da OSPA, sobre um projeto que busca fazer coexistirem patrimônio, arquitetura e futuro.
Confira a entrevista completa:
PATRIMÔNIO COMO MATÉRIA DE PROJETO
1. Olhando para o Marquês 650, quais foram as principais premissas que orientaram o desenvolvimento do empreendimento?
O projeto do Marquês 650 está intrinsecamente ligado à casa histórica presente no terreno. Desde o primeiro traço, o projeto foi desenhado para criar uma relação harmônica entre o passado e o presente, transformando a casa em um elemento protagonista do projeto.
Do aspecto do produto, o projeto prioriza a qualidade dos apartamentos, que são organizados de forma funcional, trazendo conforto na área íntima, e priorizando a vista do entorno, e integração dos ambientes internos com os terraços que envolvem as salas de quina.

2. Que dilemas e responsabilidades surgem ao projetar o novo em um lugar que carrega memória afetiva para a cidade?
Quando intervimos em um local como este, precisamos trazer o novo sempre com um olhar na história deste local, buscando manter suas tradições e memórias. Entendemos que não há motivos para que um imóvel que não atenda às necessidades mercadológicas atuais – seja do dono do imóvel em questão, seja da população que vive ou transita no entorno dele – se mantenha intacto, intocável. Porém, há que se ter cautela ao intervir, resgatando o conhecimento a respeito da história local e transmitindo sua memória em harmonia com as necessidades contemporâneas.
3. O Moinhos de Vento é um bairro onde camadas históricas e contemporâneas convivem. Como essa identidade influenciou o desenho do empreendimento?
Situado em um dos bairros mais tradicionais e consolidados de Porto Alegre, o desafio que se impõe é viabilizar o empreendimento sem descaracterizar a paisagem e a vitalidade existentes.
Foi fundamental integrar harmonicamente a nova edificação ao entorno. A forma como o casarão histórico é preservado garante a manutenção da identidade do bairro, caracterizado justamente pela coexistência do antigo e do contemporâneo.
Além disso, a edificação não terá gradis no alinhamento, garantindo integração com a cidade e oferecendo à rua Marquês do Herval um jardim que reforça essa relação urbana.

ARQUITETURA COMO CONSTRUÇÃO DE VALOR
4. A OSPA costuma falar em transformar complexidade urbana em clareza projetual. Como essa visão aparece neste projeto?
A clareza é estabelecida ao definir um princípio norteador capaz de alinhar propósito do projeto e vocação do lugar.
Cada empreendimento é entendido como algo que influencia seu entorno e contribui para qualificar bairro e cidade.
No Marquês 650, essa clareza está justamente na convergência entre patrimônio, inserção urbana e viabilidade.
5. O Marquês 650 reúne arquitetura, interiores e projeto luminotécnico sob a assinatura da OSPA. Como essa concepção integrada fortaleceu o projeto?
A integração das disciplinas garante a coesão conceitual de todo o empreendimento, seja pela materialidade, que prioriza materiais naturais e atemporais, tais como a madeira, mármore e pedras portuguesas, seja pela espacialidade, que buscam a integração dos ambientes internos e externos, promovendo enquadramentos da paisagem do bairro e da vegetação.

6. Existe algum elemento do projeto que vocês consideram particularmente inovador — em linguagem, uso ou solução espacial?
Os pilares inclinados na fachada são abordados no projeto de forma estratégica. Além de desempenharem a função técnica/estrutural, que viabiliza a coexistência da casa histórica e da edificação nova no mesmo terreno, os pilares criam um pórtico de acesso que enquadra o hall de acesso da edificação.
Um caminho sinuoso que contorna o jardim conduz o pedestre, que passa entre a estrutura para acessar o interior do edifício, experienciando um trajeto sensorial que vai da escala monumental dos pilares, à escala acolhedora do interior.
7. O que representa, para a OSPA, intervir em um endereço tão emblemático para a memória do Moinhos de Vento e de Porto Alegre?
Para nós, é um prazer muito grande poder intervir no bairro Moinhos de Vento. Se trata de um bairro muito tradicional da nossa cidade e vemos que, por esse motivo, temos uma responsabilidade ainda maior em transmitir o que acreditamos através de cada projeto desenvolvido.
8. Em termos de posicionamento imobiliário, como o Marquês 650 dialoga com o momento atual do mercado?
O Marquês 650, uma parceria da OSPA architecture com a Woss Incorporadora, é posicionado como uma arquitetura que valoriza o que já existe enquanto projeta o futuro. Essa abordagem responde à crescente necessidade do mercado por empreendimentos que não apenas se insiram, mas também qualifiquem o bairro e o entorno imediato, integrando-se de forma consciente ao contexto urbano.
CIDADE, IMPACTO E FUTURO
9. Considerando a inserção do Marquês 650 na cidade, qual é a leitura da OSPA sobre o impacto urbano do projeto?
O desafio que se impõe é de viabilizar o empreendimento sem descaracterizar a paisagem e a vitalidade existentes, e para isso foi fundamental a integração harmônica da nova edificação com o entorno.
A forma com a qual o casarão histórico é preservado garante a manutenção da identidade do bairro, caracterizado pela coexistência do antigo e do contemporâneo, além de garantir a ativação da fachada com um uso comercial.
10. Como vocês enxergam a evolução da relação entre arquitetura e produto imobiliário nos próximos anos?
Entendemos que a arquitetura deixará de ser uma etapa isolada e passará a ser um ativo de inteligência no desenvolvimento do produto imobiliário. O foco do projeto arquitetônico será em garantir o equilíbrio entre custo e captura de valor, valorizando o ativo através de design eficiente, conceito e branding, tópicos que exigem pensamento estratégico por parte do arquiteto.
11. Para finalizar: o que ainda está sendo mal compreendido — ou subestimado — quando falamos em projetar para a complexidade urbana?
A complexidade urbana é subestimada quando se foca apenas nos aspectos formais do urbanismo e dos empreendimentos. O sucesso do projeto só acontece quando há harmonia entre a vocação do lugar, a arquitetura e a viabilidade econômica e precisamos entender que cada pequeno projeto contribui para a cidade e que, para que tudo funcione, precisamos que a academia, os governos e os empreendedores trabalhem juntos, em colaboração.
Acredito que subestimamos tal complexidade e o papel da arquitetura está em buscar essa conexão.

Na fileira de baixo, da esquerda para a direita: Rodrigo Milani, Leticia Garcia e Felipe Carneiro
Método OSPA: arquitetura como inteligência territorial
Além do Marquês 650, a conversa com a OSPA revelou uma camada mais ampla sobre o método que orienta o escritório — da leitura urbana à estruturação do ativo imobiliário. A arquitetura aparece como síntese entre território, estratégia e valor.
Para a OSPA, o ponto de partida está naquilo que define como “clareza projetual”: a capacidade de transformar variáveis complexas — mercado, legislação, cidade, restrições e oportunidades — em um princípio orientador capaz de alinhar o propósito do projeto à vocação do lugar.
“Cada empreendimento é entendido como algo que influencia seu entorno e contribui para o desenvolvimento e a qualificação do bairro e da cidade como um todo. A arquitetura atua como forma, função e inteligência urbana”, afirmam Carolina Souza Pinto, sócia-fundadora da OSPA e diretora da OSPA architecture, e Henrique Clezar, sócio e senior architect.
Essa abordagem se desdobra em um método que busca integrar mercado, viabilidade volumétrica e viabilidade econômico-financeira desde a origem do projeto — estrutura que o escritório organiza no chamado Plano de Desenvolvimento Imobiliário.
Segundo Carolina e Henrique, o processo começa pela leitura de comportamento de mercado e pela definição das tipologias com maior potencial de exploração do produto. Em seguida, entram os estudos numéricos, normativos e volumétricos que sustentam o conceito arquitetônico, articulados à análise de viabilidade econômico-financeira do ativo.
“O resultado é a melhor solução que se pode alcançar ao considerar todas essas variáveis complexas”, resumem.
Essa estrutura aproxima arquitetura e inteligência de produto, entendendo o projeto não como uma etapa isolada do desenvolvimento imobiliário, mas como parte da construção de valor do empreendimento.
Nesse sentido, a inserção urbana deixa de ser consequência e passa a ser premissa.
“O resultado é um produto imobiliário factível, com uma linguagem que traduz a preocupação com sua inserção urbana e com a relação com as pessoas”, destacam.
Sob essa perspectiva, arquitetura, urbanismo e estratégia deixam de operar em camadas separadas e passam a compor um mesmo raciocínio de desenvolvimento — visão que ajuda a entender por que, no caso do Marquês 650, patrimônio, cidade e produto aparecem como dimensões inseparáveis do projeto.
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Equipe OSPA que trabalhou no projeto:
Sócio responsável: Rodrigo Milani
Líder de projeto: Henrique Clezar
Especialistas: Carolina Souza Pinto, Cristiano Carneiro, Franco Miotto
Arquitetura: Guilherme Führ, Letícia Garcia
Interiores: Guilherme Führ, Felipe Carneiro, Felipe Aguiar
Compatibilização: Henrique Clezar
Luminotécnico: Guilherme Führ, Felipe Carneiro, Felipe Aguiar
Crédito técnico
Intervenção de restauro do casarão histórico: Eifler Jr. Studio de Arquitetura SS
SERVIÇO
OSPA Architecture
Site: www.ospa.com.br
Instagram: @ospa.architecture
Endereço: Av. Borges de Medeiros, 1501 – Praia de Belas – Porto Alegre (RS) | São Paulo (SP) | Miami
Contatos: contato@ospa.com.br
Imagens: Vista (Render) OSPA / Divulgação
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